Saúde Integral

03/10/2016 10h00

Ideais positivos são essenciais

O médico Dr. José Ruguê, apontado como uma das maiores autoridades do Ayurveda, conversou com o NBE. Acompanhe aqui a versão completa desta ENTREVISTA EXCLUSIVA

Por Filipe Marcel

Arquivo Nosso Bem Estar
Rouge

Em sua passagem por Porto Alegre, no fim de setembro, José Ruguê conversou com exclusividade com o Jornal Nosso Bem Estar

Enquanto você estiver lendo essa entrevista, o médico José Ruguê Ribeiro Júnior, apontado como uma das maiores autoridades do Ayurveda no Brasil, estará formando centenas de terapeutas em Brasília, Belo Horizonte, São Paulo, Natal, Salvador, Curitiba, Porto Alegre e também em Alto Paraíso, no interior de Goiás. A agenda quase sempre lotada em seu consultório, em Uberlândia, é dividida com inúmeras atividades no Suddha Dharma Mandalam, organização da qual faz parte, junto com a Fundação Sri Vájera, que fundou para prestar serviços à comunidade por meio do Ambulatório de Ayurveda. O médico mineiro ainda mantém a Escola Yoga Brahma Vidyalaya, onde são ministrados os cursos em regime de imersão e a Clínica Kalayasa, onde são desenvolvidos os tratamentos ayurvédicos na forma de programas personalizados, além de uma pequena fábrica voltada para a produção de alimentos especiais chamada Annapurna. Quando você chegar nessa linha, ele provavelmente já estará pela Argentina, para participar do 1º Encontro Latino Americano de Ayurveda, ou arrumando as malas para participar como palestrante no Congresso Mundial de Ayurveda, que acontece em novembro na Índia.

Para dar conta de compartilhar cada vez mais os seus conhecimentos sobre a medicina tradicional da Índia, nos últimos sete anos ele passou a produzir diversos vídeos em estúdio, que fazem não só com que ele aparecer em todos esses lugares ao mesmo tempo, como também tem ajudado a formar turmas em outros países, entre eles Portugal, Argentina e Espanha. O Ayurveda, ou “ciência da vida” parte do princípio de que tudo que entra em nosso organismo, sejam alimentos ou impressões, pensamentos e emoções que vivemos, precisam passar por um processo de digestão para serem assimilados devidamente pelo nosso organismo. O curso de formação de terapeutas tem servido para orientar qualquer pessoa na escolha apropriada da sua dieta, hábitos de vida e oferecer exercícios que restauram o equilíbrio do corpo, da mente e da consciência, prevenindo doenças e tratando enfermidades já instauradas.

Em sua passagem por Porto Alegre, no fim de setembro, José Ruguê conversou com exclusividade com o Jornal Nosso Bem Estar, antes de iniciar o curso de formação no Espaço Povo em Pé, que será dividido em 21 módulos e contará com a coordenação de Gisele de Menezes.

NOSSO BEM ESTAR – Em que momento da sua vida surgiu o interesse pelo Ayurveda?

JOSÉ RUGUÊ – Eu me formei em Medicina na Universidade Federal de Uberlândia em 1981 e minha especialidade era terapia intensiva. Desde então, eu vinha acompanhado essa doença que mais mata no mundo, que é o enfarto. Hoje morrem oito pessoas por minuto no mundo de enfarto e a previsão da Organização Mundial da Saúde é que, na próxima década, vão chegar a morrer 60 pessoas por minuto. Por mais que a medicina tenha avançado em tecnologia e dado certo nível de segurança, nós podemos perceber que a estatística de 30% das pessoas morrerem no local onde sofrem o infarto é algo realmente assustador. A mesma coisa podemos falar em relação ao câncer. Então, por mais que a gente tenha essa falsa sensação de segurança dada por essa medicina de diagnóstico, que sem dúvida tem evoluído muito, o problema das doenças permanece crescendo tremendamente. E graças à visão do Ayurveda eu entendi que isso se deve claramente a fatores de estilo de vida e emoção.

NBE – Em quais pontos o Ayurveda tem conseguido contribuir com a medicina ocidental, de fato?

JR – O Ayurveda considera que existem quatro níveis de fatores que podem desequilibrar essa energias internas em nós e aí desequilibrar o metabolismo e gerar doenças. A primeira é a emoção, que é a que mais pesa. Em segundo, temos o estilo de vida, que é aquilo que a gente faz no dia a dia. Terceiro, é a alimentação. E, em quarto, é o ambiente. O enfarto, de uma maneira geral, pode ser prevenido com essa combinação de alimentação correta, exercício físico e estado mental positivo.

NBE – Muitos atribuem o avanço dessas doenças a uma rotina cada vez mais estressante. Essa vida agitada realmente é capaz de desencadear problemas cardiovasculares, por exemplo?

JR – De fato os fatores estressantes são muito intensos numa vida cheia de crises e excesso de informação, que quase sempre fazem a gente sofrer. Mas o que faz uma pessoa adoecer não é o fator estressante, mas sim como a pessoa reage ao fator estressante. Dez pessoas diante de um mesmo fator, por exemplo, trabalhar em um banco, todas sob pressão, elas irão reagir de uma forma diferente uma das outras. Cada uma seguirá de acordo com seus valores, suas crenças, seus hábitos, seus padrões mentais. Então, é muito importante mudar esses padrões mentais, para que a gente possa enfrentar a vida de uma maneira mais harmoniosa, sendo capazes de enfrentar esses fatores de estresse sem adoecer.

NBE – Por que vemos tantas doenças, principalmente o câncer e o enfarto crescendo dessa maneira?

JR – A nossa reação é exagerada, e essa é a principal causa de adoecimento. Então, o Ayurveda, que nada mais é que um sistema natural de cura, mostra que nossos métodos preventivos na medicina moderna não são totalmente eficazes. Isso faz com que nós, médicos, nos sintamos bastante frustrados, porque nós não ajudamos muito a contribuir muito com a prevenção. Tem as estatinas, tem vários medicamentos capazes de prevenir, mas a prevenção ainda é atropelada com a incidência cada vez maior de doenças.

NBE – Se não é o estresse, quem seria o grande vilão responsável pelo aumento dessas doenças?

JR – Os países em desenvolvimento são os que mais contribuem com esses índices crescentes. O Brasil, a Rússia, a China, onde muita gente tem saído da faixa da miséria, tem adotado padrões mentais de escolha daquilo que adoece. Comidas industrializada, vida mais ociosa, ganho de peso, o colesterol sobe e disso vem a doença. Então, sem dúvida alguma que esses fatores de emoção, estilo de vida e alimentação contribuem muito para uma vida saudável. E é isso que o Ayurveda sempre tratou de enfatizar.

NBE – Foi necessário adaptar algo para conseguir aplicar esses conhecimentos, muito comuns na Índia, aqui no Brasil?

JR – Somente para atender à legislação. Em relação a assepsia, o uso de sondas mais modernas no momento em que vamos fazer uma lavagem intestinal, a maneira como preparamos a sala. Nós também adotamos, apesar de não ser obrigatório, algumas técnicas científicas de pesquisa, até para explicar com uma linguagem mais moderna. Porque o Ayurveda tem uma visão mais bioenergética sobre a vida e a nossa visão, na nossa cultura moderna, é mais bioquímica. Então, basicamente tratamos de traduzir os conceitos da bioenergética e usamos a linguagem cientifica para explicar como acontece a limpeza do intestino, por exemplo, que pode contribuir para aumentar a produção de vitaminas do Complexo B que irão nutrir o cérebro. Dessa forma o Ayurveda tornou-se mais acessível.

NBE – Qual o segredo de tanta procura, como temos observado nos últimos anos em relação ao Ayurveda?

JR – O nosso papel como terapeuta é de motivar as pessoas. Geralmente quem pratica o Ayurveda é muito apaixonado, que estimula as outras pessoas a terem um estilo de vida mais saudável. Por outro lado, o Ayurveda tem também um papel curativo, que tem sido cada vez mais reconhecido pela pesquisa científica. É um sistema que tem um grande resultado em tratamento de doenças crônicas difíceis de curar pela medicina moderna, principalmente as doenças degenerativas do sistema nervoso, como Alzheimer, demência, Parkinson, esclerose múltipla, essas doenças como Esclerose Lateral Amiotrófica, distrofia muscular. Nós temos grandes quantidades de pacientes com esses problemas em nosso ashram e o tratamento ayurvédico tem resolvido grande parte deles. Isso mostra que temos um grande papel na vida moderna. Não se trata apenas de um sistema exótico da Índia.

NBE – Quando o sr. passou a investir mais na formação de terapeutas?

JR – Eu venho trabalhando na formação de terapeutas em Ayurveda desde 1997. Durante muitos anos eu fui gravando as aulas, o que facilitou muito o acesso das pessoas a esses materiais. A formação, de uma forma geral, é muito boa, inclusive com diversos materiais que fiz em parceria com o David Frawley, considerado um dos maiores especialistas nessa área. Os alunos saem prontos para disseminar a saúde, o bem estar e saúde por meio do Ayurveda.

NBE – Como tem sido desenvolver esses cursos pela Internet?

JR – Tenho gravado esses materiais em estúdio e transmitido via plataforma Moodle de ensino. Com isso é possível, por exemplo, realizar chats semanais. Nosso próximo passo será lançar o curso em espanhol para dar acesso a outros países.

NBE – Existe alguma diferença em relação ao conteúdo que é repassado aos seus alunos localizados em diferentes cidades? 

JR – A gente ensina os princípios do Ayurveda e as pessoas adaptam esses princípios de acordo com o lugar. De uma forma geral, o Brasil ainda precisa valorizar a sua tradição, principalmente no que diz ao uso das plantas medicinais. Essa cultura industrial e sintética tem uma influência muito forte e tende a fazer com que as pessoas desvalorizem nosso potencial. Os canais de televisão desprezam a visão naturalista, enquanto no resto do mundo existem pesquisas bastante sérias em relação ao uso de plantas medicinais.

NBE – Como tem sido desenvolvido esse trabalho de conscientização? 

JR – A gente tem montado alguns modelos de aplicação de Ayurveda em termos de saúde pública. Nós estamos em Alto Paraíso, junto com a Prefeitura e a fundação Awaken Love, do Prem Baba, e outra ação em andamento em Araguari, em Minas Gerais. Nos dois lugares nós estamos montando ambulatórios para treinamento dos alunos. Eu vejo que essa é a principal aplicação do Ayurveda: torna-la acessível a todos. Até então, tudo isso era visto pelos ocidentais apenas como um tratamento de beleza e entrou em spas e lugares de luxo, dando uma ideia de que o tratamento era caro. Mas nesse aspecto preventivo, de orientação, de alimentação, utilizando os recursos locais e baseada no uso das ervas encontradas na região, realmente ainda pode ser trabalhado como algo mais acessível a todos.

NBE – No que a criação da Associação Brasileira de Ayurveda, atualmente em discussão no Congresso, poderá contribuir com isso? 

JR – Nós queremos criar uma regulamentação da profissão do terapeuta ayurvédico. O Ayurveda não é reconhecido como uma especialidade médica, mesmo que nossa prática de clínica médica, utilizando técnicas naturais, sejam comprovadas. Nós criamos um texto para o deputado federal Giovani Cherini utilizar como base para o projeto de lei, que atualmente está passando pelas comissões dentro do Congresso Nacional. Acredito que essa regulamentação será aprovada em breve.

NBE – De que forma o Ayurveda tem beneficiado as pessoas, mesmo não sendo ainda reconhecida? 

JR – O Ayurveda tem ajudado as pessoas desde suas rotinas diárias, no seus processos de limpeza, também conhecido como panchakarma, até orientar empresas sobre o perfil do empregado ideal para ocupar determinados cargos. Um professor de yoga, por exemplo, poderá identificar melhor as diferenças entre as pessoas e orientar seus alunos de acordo com o clima, idade e peso. Existem vários campos do trabalho e nesses cursos de formação a pessoa já pode fazer sua escolha, antes de seguir para os cursos de pós, que permitem um aprofundamento na área terapêutica.

NBE - Quais mudança o sr. fez na sua rotina diária, desde que entrou em contato com o Ayurveda? 

JR – Meu anseio, desde criança, era iniciar essa busca pela verdade, seguir pelo caminho da autorrealização, para entender a essência das coisas. No Suddha Dharma Mandalam, que conheci aos os meus 14 anos, encontrei meu mestre [Ruguê recebeu o nome espiritual Swami Narayanananda Ayurved Saraswati]. Achei que a Medicina seria uma boa maneira de servir e, na minha prática médica, percebi que meu conhecimento no yoga seria bastante útil. Mas eu não tinha uma metodologia, até descobrir o Ayurveda. Na medida em que fui me aprofundando, fui para Índia e vivi uma mudança radical.

NBE – A que conclusão o sr. chegou depois de fazer todas essas descobertas? 

JR – O segredo é integrar tudo na sua vida, seu trabalho com a sua vida social, sua vida íntima, tudo na mesma meta. O que o Ayurveda me propiciou foi isso: um sentimento que você realmente não está dividido. Ao mesmo tempo, a pessoa tem que desenvolver aquilo que falta nela e a busca pelo autoconhecimento deveria passar por essa análise.

NBE – Esse é o legado que o sr. espera deixar? Inclusive para a sua filha, que está trabalhando cada vez mais dentro do Ayurveda? 

JR – A minha filha [Dra. Ananda Ruguê] também fez Medicina e optou por ir mais em direção aos cuidados com a mulher e a criança. Ela foi para a Índia para estudar isso, especificamente. Pessoalmente vejo esse como um grande caminho, para uma grande mudança na sociedade. A maneira com que se encara a gravidez, o parto, a formação da criança desde o embrião... Durante a gestação, a mulher cria samskaras, que são impressões na mente do bebê. Tudo que a mãe pensa, come e faz, e também pelos sacramentos, mantras e rituais que realiza, pode gerar impressões positivas. E todo mundo é produto das coisas boas e ruins que acontecem com a gente.

NBE – O que podemos fazer para melhorar a nossa qualidade de vida e aumentar essa positividade que falta em muitas de nossas mentes? 

JR – Algumas coisas que criam condicionamento positivo é buscar uma alimentação lactovegetariana, que diminui muito ímpeto da violência e da negatividade. O leite é um bom alimento, mas nós cuidamos das vacas de uma maneira extremamente cruel. Logo, esse leite não pode ser de boa qualidade. O conceito da vaca sagrada é bastante inteligente, por isso o leite produzido dessa maneira é excelente, do contrário, ele é um veneno. Outra coisa é procurar viver uma vida ética, baseada em princípios, como da não-violência, da veracidade, de servir ao outro. Isso foi terapêutico para mim. Ter um objetivo foi essencial. Quando a pessoa não tem um ideal ela se dispersa e os pequenos problemas passam a pesar muito. Por isso, eu diria que ideais positivos são essenciais.

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