Saúde Integral

14/01/2014 13h34

Obstetra defende mudança de paradigmas

Confira entrevista exclusiva com o médico Ricardo Herbert Jones

Por Nosso Bem Estar

O RENASCIMENTO DO PARTO/ DIVULGAÇÃO/ NBE
Ricardo jones

Ricardo Jones é referência quando o assunto é humanização do parto

Ricardo Herbert Jones é um obstetra que se humanizou. Médico homeopata de Porto Alegre, é coordenador nacional da Rede pela Humanização do Parto e Nascimento. Após algumas experiências transformadoras escreveu os livros “Memórias do Homem de Vidro” e “Entre as orelhas – histórias de parto”, e tornou-se referência quando o assunto é a retomada do sentido natural do parto.

Leia mais sobre o parto natural parto em nossa matéria.

O médico participou do filme O Renascimento do Parto, propondo reflexões importantes.  “Algumas pessoas dotadas de muito rancor e pouca informação acusam-nos de sermos refratários ao uso de tecnologia. Enganam-se, pois somos abertos a toda aplicação de recursos que possa auxiliar mães e bebês. Entretanto, nos posicionamos contra quaisquer abusos praticados em nome de uma lógica mercantilista e corporativista na atenção ao parto”, salienta.

 

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O obstetra tem também uma posição firme quanto ao direito de escolha sobre o local de parto. “Para isso usamos medicina baseada em evidências para fortalecer nossas posições, e não mitologias urbanas ou ideias preconceituosas. Não somos movidos por fantasias ou crenças religiosas, mas acreditamos no potencial transformador da liberdade, da autonomia e do conhecimento. Sabemos que a escolha de um modelo de parto pertence à mulher e sua família, e que nossa posição é de suporte e auxílio, jamais de expropriação de um evento sagrado, cuja expressão é parte essencial daquilo que nos constitui como humanos”, defende.

Ricardo Jones respondeu ao Nosso Bem Estar algumas questões importantes que envolvem o nascimento de um bebê. Confira a entrevista completa:

Nosso Bem Estar - Quais os principais riscos de se fazer cesariana sem entrar em trabalho de parto?

Ricardo Herbert Jones - Os principais riscos são dois: o primeiro é a cesariana propriamente dita, que aumenta a morbidade materna e neonatal, ao suprimir a experiência de parto para ambos. Segundo a antropóloga Barbara Katz-Rothman “Parto não significa apenas fazer bebês, mas construir mães fortes para enfrentar os desafios da maternagem”. Portanto, mais do que um processo biológico, o parto é um rito de passagem, um “capacitador” das etapas seguintes. Os riscos para a mãe duplicam quando se marca uma cesariana, segundo um estudo recentemente publicado. Assim, é importante que tais riscos sejam evitados quando se trata de uma gestação normal e de baixo risco. Em segundo lugar, a cesariana com hora marcada retira o protagonismo do bebê. Não é ele mais quem decide quando está pronto para nascer, mas sim as conveniências de outros participantes, como o sistema médico ou os pais. Essa conduta, de intervir artificialmente no momento do parto, é um dos maiores causadores da epidemia de prematuridade que se abateu sobre o país, colocando em risco a saúde dos bebês e aumentando de forma dramática os custos com unidades neonatológicas.
 
NBE - Por que, em sua opinião, o grande número de cesarianas hoje em todo o mundo pode ser considerado uma tragédia?

RHJ - Pode ser chamado assim porque a intervenção desmedida sobre o nascimento, com as múltiplas explicações que podem ser dadas para este fenômeno, acarreta um gradual afastamento das pessoas da vivência natural do nascimento. Todos os significados últimos que podem ser aplicados à chegada de uma criança se perdem ou se transformam em um ritual de empoderamento das instituições e dos profissionais, e não das mães e da família. Assim, desqualificamos exatamente aquelas que vão precisar de preparo e força para lidar com os cuidados com o recém-nascido. Além disso, todo o arcabouço hormonal forjado em milhões de anos de preparo para o recebimento de “feto extra-útero”, se perde com a ação extemporânea de retirada cirúrgica de um bebê. O aumento de mortalidade materna observado em países como os Estados Unidos está ligado aos abusos na utilização do recurso cirúrgico para a extirpação do feto. Inúmeros estudos apontam dificuldades de todo o tipo quando analisamos bebês nascidos de cesariana, entre eles a obesidade. A perda gradual da capacidade do sistema médico de lidar com os desafios do parto humano é uma tragédia antropológica, da mesma ordem da morte dos idiomas ou das habilidades construídas por populações primitivas. A normatização da assistência médica ao parto, homogeneizando-o a ponto de descaracterizá-lo, é uma forma de submissão das mulheres a um ordenamento tecnológico e distante das reais necessidades de mães e bebês. A luta pela humanização do nascimento é, por esta especial forma de ver, uma luta pela liberdade, pela autonomia e pela livre expressão das aspirações humanas.
 
NBE - O que é ocitocina sintética? Que prejuízos o seu uso pode trazer?

RHJ - Ocitocina (ou oxitocina) é um hormônio produzido pelo hipotálamo e estocado na porção posterior da hipófise. É importante em inúmeras funções orgânicas. Está relacionado com as contrações uterinas, a ejeção do leite pelos alvéolos mamários e pela atividade sexual. Entretanto, por ser uma molécula grande, não ultrapassa a barreira hemato-encefálica, e quando injetada na corrente sanguínea não consegue produzir efeitos centrais, agindo apenas nos órgãos efetores (útero e mamas). Assim, quando se usa ocitocina sintética nas pacientes durante um trabalho de parto, a concentração sanguínea deste hormônio se multiplica várias vezes na corrente sanguínea, fazendo com que as contrações uterinas sejam artificialmente mais intensas e mais frequentes. Tais contrações, quando exageradas, podem causar a deprivação de oxigênio para o bebê, pela intensidade da energia contrátil do útero. Portanto, a ocitocina só pode ser utilizada de maneira muito cautelosa, levando-se em consideração os seus riscos potenciais.
 
NBE - Qual seria o modelo ideal de parto em sua opinião?

RHJ - Eu estabeleci um modelo de assistência humanizada ao nascimento que se assenta sobre um tripé conceitual. Se posso entender que não existe um parto ideal, na medida em que ele é um processo absolutamente subjetivo, pessoal e único, posso ao menos analisar quais os elementos indispensáveis para que ele ocorra de forma digna e segura, para mães e bebês. Assim, para que o modelo possa ser considerado “ideal” e aplicável em qualquer latitude do planeta, ele precisa conter os seguintes princípios básicos inalienáveis:
 
- O protagonismo restituído à mulher, sem o qual estaremos apenas "sofisticando a tutela" imposta milenarmente pelo patriarcado.

- Uma visão integrativa e interdisciplinar do parto, retirando deste o caráter de "processo biológico", e alçando-o ao patamar de "evento humano", onde os aspectos emocionais, fisiológicos, sociais, culturais e espirituais são igualmente valorizados, e suas específicas necessidades atendidas.

- Uma vinculação visceral com a Medicina Baseada em Evidências, deixando claro que o movimento de "Humanização do Nascimento", que hoje em dia se espalha pelo mundo inteiro, funciona sob o "Império da Razão", e não é movido por crenças religiosas, ideias místicas ou pressupostos fantasiosos.

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Fontes: Nascer Melhor, médico obstetra Ricado Herbert Jones.

 

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