Planeta

17/09/2015 07h00

Com olhar de astronauta

Teólogo e Ecologista, Leonardo Boff propõe alimentar uma paixão pelo cuidado do mundo. Suas ideias de Ecologia Integral estão presentes na recente encíclica ambiental divulgada pelo Papa Francisco.

Por Vera Mari Damian

Vera Mari Damian
Boff

Leonardo Boff propõe alimentar uma paixão pelo cuidado do mundo. Suas ideias de Ecologia Integral estão presentes na recente encíclica ambiental divulgada pelo Papa Francisco.

O primeiro astronauta brasileiro conta que, quando foi ao espaço e viu o planeta Terra lá de cima e o que somos na vastidão do universo, sentiu a sua fé e seu relacionamento com Deus aumentarem. Aquela bolinha azul boiando na imensidão lembrou a Marcos Pontes os olhos azuis amorosos de sua mãe.

Daqui da Terra, o teólogo ecologista brasileiro Leonardo Boff tem mantido esse olhar de astronauta ao longo de décadas. Suas ideias sobre os cuidados urgentes para com a saúde da “Mãe Terra” e sobre a necessidade da raça humana se perceber enquanto uma única nação irmã são defendidas por ele com perseverança e encantamento, numa visão cosmológica que Boff chamou de Ecologia Integral.

Aos 76 anos, Leonardo Boff já nos brindou com uma farta produção literária de mais de 60 livros sobre Teologia, Ecologia, Espiritualidade, Filosofia, Antropologia e Mística, traduzidos para vários idiomas. Perdeu as contas de quantas palestras já proferiu como professor e conferencista nos mais diferentes auditórios do Brasil e do exterior. Em 2001, foi agraciado com o Prêmio Nobel Alternativo, em Estocolmo (Right Livelihood Award).

Mas segundo ele próprio, um de seus maiores feitos foi ter participado da Comissão que redigiu a Carta da Terra, no ano de 2000, um dos mais importantes documentos internacionais para a preservação do planeta, que depois foi legitimado pela adesão de mais de 4.500 organizações governamentais e não governamentais de todo o mundo.

A CARTA DA TERRA

Com um olhar holístico, a Carta da Terra compartilhou com o mundo as ideias de que a proteção ecológica, a erradicação da pobreza, o desenvolvimento econômico equitativo, o respeito aos direitos humanos, à democracia e à paz são interdependentes e indivisíveis para guiar a humanidade a um futuro verdadeiramente sustentável a partir do século XXI.

A Carta da Terra compreende o planeta Terra como um organismo vivo e como nosso Lar Comum. O olhar holístico de Leonardo Boff é facilmente perceptível no preâmbulo da Carta da Terra, marcado por sua característica linguagem inspiradora:

“Estamos diante de um momento crítico na história da Terra, numa época em que a humanidade deve escolher o seu futuro. À medida que o mundo torna-se cada vez mais interdependente e frágil, o futuro enfrenta, ao mesmo tempo, grandes perigos e grandes promessas. Para seguir adiante, devemos reconhecer que, em meio a uma magnífica diversidade de culturas e formas de vida, somos uma família humana e uma comunidade terrestre com um destino comum. Devemos somar forças para gerar uma sociedade sustentável global baseada no respeito pela natureza, nos direitos humanos universais, na justiça econômica e numa cultura da paz. Para chegar a este propósito, é imperativo que nós, os povos da Terra, declaremos nossa responsabilidade uns para com os outros, com a grande comunidade da vida, e com as futuras gerações.”

INSPIRAÇÃO PARA O PAPA

O chamado da Carta da Terra segue ecoando pelo século XXI. Recentemente o Papa (POP) Francisco surpreendeu o mundo com o lançamento da encíclica ambiental Laudato Si’ – Sobre o Cuidado da Casa Comum cujo (profundo) conteúdo é muito similar ao da Carta da Terra.

Não por acaso. Leonardo Boff é amigo pessoal do Papa Francisco e foi um de seus consultores permanentes para a redação do documento, juntamente com cientistas do mundo inteiro.

“Esta encíclica é um verdadeiro manual de Ecologia e um documento único na história da igreja, porque não se dirige só aos cristãos, mas fala diretamente à humanidade e a cada um”, comentou Leonardo Boff, no ciclo de palestras que ministrou recentemente no Sul do país.

Ele destaca que a encíclica traz uma contribuição extraordinária ao pensamento ecológico, pois expande a visão para além do ambientalismo. Fala da ecologia social, da ecologia mental, da espiritualidade, englobando tudo isso na palavra integral. Recobre todos os saberes e faz um desafio: “cada saber, cada pessoa, cada instituição deve dar a sua contribuição para resolver um problema que é global”.

A encíclica não se rende à resignação de que há uma grande deterioração da nossa Casa Comum e de que o sistema atual que produz desequilíbrios é insustentável, mas confia na capacidade humana de forjar um novo estilo de vida e ensina o caminho de mudança: “O equilíbrio ecológico deve ser interior consigo mesmo, solidário com os outros, natural com todos os seres vivos e espiritual com Deus”, diz o texto.

PAIXÃO PELO CUIDADO

Em suas palestras, Leonardo Boff procura fomentar a reflexão e a coragem de jovens e adultos para a necessária mudança global do atual sistema de exploração e consumo que se tornou predatório para o Planeta.

Citando a encíclica do Papa Francisco, Boff enfatiza que: “toda aspiração a cuidar e a melhorar o mundo requer mudanças profundas nos estilos de vida, nos modelos de produção e de consumo, nas estruturas consolidadas de poder que hoje regem as sociedades”. O ecologista propõe “alimentar uma paixão pelo cuidado do mundo”, que deve ser compreendido não como mera benevolência pontual, mas como “um novo paradigma, amoroso e amigo da vida e de tudo o que existe e vive”.

A Carta da Terra e a Encíclica Laudato Si’ – Sobre o Cuidado da Casa Comum mantêm acesa a luz da esperança de que ainda podemos salvar a Mãe Terra e a nós. Mais do que nunca esses documentos internacionais precisam entrar na pauta das reflexões pessoais e de governos. Em dezembro de 2015, os 196 países membros da Organização das Nações Unidas – ONU – se reúnem na França mais uma vez na busca por um consenso sobre um novo acordo entre os países capaz de deter o chamado aquecimento Global, que está em franca expansão, já denotando suas consequências sociais e ecológicas trágicas no mundo inteiro.

Leonardo Boff propõe a cada um a reflexão e a prática das quatro Ecologias : Ambiental, Social, Mental e Integral. Lembrando os astronautas que de suas naves espaciais veem o planeta tão belo e tão frágil no meio do espaço sideral, ele professa: “ou conseguimos uma reintegração entre Terra e Humanidade ou não haverá futuro para ninguém. A Terra é nossa Casa Comum, a única que temos para morar e sermos felizes. Nós não devemos estar em cima da Terra, dominando-a, mas junto dela cuidando-a como cuidamos da nossa mãe.”

Vera Mari Damian é jornalista, editora do Nosso Bem Estar de Caxias do Sul e participou de palestras e entrevistas com Leonardo Boff em sua passagem pelo RS.

As quatro Ecologias - por Leonardo Boff

Ecologia ambiental
Se preocupa com o meio ambiente, com a qualidade de vida e com a preservação das espécies em extinção. Procura tecnologias novas, menos poluentes, privilegiando soluções técnicas. Procura corrigir os excessos da voracidade do projeto industrialista mundial, que implica sempre custos ecológicos altos.

Ecologia social 
Insere o ser humano e a sociedade dentro da natureza. Propõe um desenvolvimento sustentável em que se atenda às carências básicas dos seres humanos hoje, sem sacrificar o capital natural da Terra e considerando também as necessidades das gerações futuras, que têm direito à sua satisfação e de herdarem uma Terra habitável com relações humanas minimamente justas. Propõe cuidar de todos os seres vivos, porque todos são nossos irmãos e habitantes da mesma casa comum. O bem-estar não pode ser apenas social, mas tem de ser também sociocósmico. Ele tem que atender aos demais seres da natureza, como as águas, as plantas, os animais, os microorganismos, pois todos juntos constituem a comunidade planetária, na qual estamos inseridos, e, sem eles, nós mesmos não viveríamos.

Vivemos numa sociedade mundial onde apenas 85 pessoas têm mais dinheiro do que 3,2 bilhões de seres humanos. Onde um (1) bilhão de pessoas passam fome. Sem uma justiça social nenhuma ecologia vai poder dizer que estamos numa Casa Comum. Temos um fosso de profunda desigualdade. É preciso que todos possam ter o suficiente.

O novo estilo de vida deve incorporar uma simplicidade voluntária, como forma de moderar nosso instinto de acumular. Podemos ser mais com menos e viver uma sobriedade compartida que permitirá que todos possam ter o suficiente e o decente para viver na única Casa Comum que temos, o planeta Terra.

Ecologia mental
Sustenta que as causas do desequilíbrio estão no tipo de mentalidade que vigora. Há em nós instintos de violência, vontade de dominação, arquétipos sombrios que nos afastam da benevolência em relação à vida e à natureza.

A cultura antropocêntrica considera o ser humano rei/rainha do universo. Pensa que os demais seres só têm sentido quando ordenados ao ser humano. Esse pensamento quebra com a lei mais universal do universo: a solidariedade cósmica. Todos os seres são interdependentes e vivem dentro de uma teia intrincadíssima de relações. Todos são importantes.

Importa recuperarmos atitudes de respeito e veneração para com a Terra. O sagrado impõe sempre limites à manipulação do mundo, pois ele dá origem à veneração e ao respeito, fundamentais para a salvaguarda da Terra. Cria a capacidade de re-ligar todas as coisas à sua fonte criadora, que é o Criador e o Ordenador do universo.

Ecologia integral
Parte de uma nova visão na qual Terra e seres humanos emergem como uma única entidade. O ser humano é a própria Terra enquanto sente, pensa, ama, chora e venera. As quatro interações existentes, a gravitacional, a eletromagnética e a nuclear fraca e forte, constituem os princípios diretores do universo, de todos os seres e também dos seres humanos. A galáxia mais distante se encontra sob a ação dessas quatro energias primordiais, bem como a formiga que caminha sobre minha mesa e os neurônios do cérebro humano com os quais faço estas reflexões. Tudo se mantém religado num equilíbrio dinâmico. E por debaixo de tudo está uma energia amorosa e poderosa que a tudo sustenta, que chamamos de Deus.

Carta Encíclica é um solene documento papal que expressa a posição da Igreja Católica sobre um tema de atualidade. Tratando da questão ambiental global, o Papa Francisco ressalta logo no início que deseja estabelecer um diálogo não apenas com os católicos, mas com todos os homens e mulheres sensíveis à urgente luta pelo reequilíbrio ecológico do planeta.Carta Encíclica Laudato Si’ – Sobre o Cuidado da Casa Comum  - por Ricardo Zugno

O Papa corrige certa interpretação ocidental da Bíblia, que entende a espécie humana como dominadora e dona da natureza, com direito a explorar seus recursos a seu bel-prazer. Para tanto recorre à mais bela oração-poema da literatura cristã europeia, o Cântico das Criaturas de São Francisco de Assis. Com a expressão Laudato Si’ (Louvado Sejas, em latim), o canto evoca carinhosamente como irmão e irmã a todos os seres da natureza expandindo o conceito de “fraternidade humana” para “fraternidade cósmica”: “...Louvado sejas, meu Senhor, pela irmã lua, e as estrelas, (...) pelo irmão vento (...) pela irmã água (...) pelo irmão fogo (...) pela nossa irmã, a mãe terra, que nos sustenta...”.

A interpretação do Papa para o papel do homem diante da natureza é de uma dupla missão: a de cuidador da natureza, garantindo a ela a sua pureza, e a de administrador zeloso de seus recursos de modo que nenhum ser humano passe privações e todos tenham vida digna como irmãos.

O cuidado com a natureza e o cuidado com a vida digna de todos os seres humanos são base para o conceito de Ecologia Integral presente no texto da encíclica. Desequilíbrio ambiental e desequilíbrio socioeconômico estão intimamente interligados, sendo os dois frutos de um sistema que impõe a lógica dos lucros a qualquer custo, sem pensar na exclusão social ou no desequilíbrio do meio ambiente.

Mesmo constatando todo o mal, a partir de profundos consensos científicos sobre a gravidade do aquecimento global, a mensagem do Papa quer ser sinal de esperança, confiando na capacidade que a humanidade tem de corrigir sua tremenda e perigosa caminhada rumo à destruição total da vida na Terra. Para tanto, propõe uma busca de Ecologia não só ambiental, mas econômica, social, cultural, espiritual, bem como a ecologia do cotidiano.

O sociólogo Edgar Morin avalia: “A mensagem pontifical apela para uma mudança, para uma nova civilização (...). Essa mensagem é, talvez, o ato número 1 para uma nova civilização (...). Hoje, para salvar o planeta, que está verdadeiramente ameaçado, a contribuição das religiões é bem-vinda. Esta encíclica é uma brilhante manifestação disso”. 

Ricardo Zugno é jornalista, membro do Focolare, movimento que promove ações de diálogo inter-religioso e intercultural em 182 nações, com vistas à paz e à fraternidade universal.  

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