Família

02/09/2015 15h35

Verdades sobre puerpério

Talvez ninguém tenha lhe contado isso. Mas acontece em muitos lares. Em quase todos os verdadeiros.

Por Kalu Brum

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Talvez ninguém tenha lhe contado isso, mas o puerpério acontece em muitos lares.

Quando hoje encontrei você, me vi em suas lágrimas: era a mesma mulher, com o filho nos braços e medo da nova vida.

Engraçado que a gente se prepara tanto para um parto porque parece que essa é a maior luta que vamos enfrentar. Mas, a bem da verdade, são os dias, e principalmente as noites escuras e frias da alma, que nos transformam na mãe possível.

 

Eu me vi nos seus olhos cheios de lágrimas e senti o mesmo pulsar desesperado de menina perdida quando nossos corpos unidos estavam no abraço longo. É, minha querida amiga, não pude prepará-la para esse momento como eu mesma não me preparei.

 

Aceite, não são dias felizes. Embora a gente tenha uma cria parida e saudável nos braços, o cansaço dos dias, das noites, do períneo partido, da alma fragmentada nos faz perguntar: onde fui me meter?

 

A nossa vida maravilhosa, cuidando do corpo, da mente, do espírito, parece que se transformou em intermináveis noites escuras em que não sabemos mais quem somos, para onde vamos e o que restará de nós nessa maluca viagem de ter um filho: um corpo pequeno, de pouco mais de 3 quilos, que se comunica de uma maneira que não podemos entender.

 

Crianças choram e não precisamos calar seu choro. Mas sim ouvir, procurar respostas: é fome? Sono? Está molhado? E quando todas as respostas estiverem respondidas, existem aquelas perguntas que nunca ousamos fazer. Ele chora, e nós, algumas vezes, só conseguimos chorar junto.

 

Talvez ninguém tenha lhe contado isso. Mas acontece em muitos lares. Em quase todos os verdadeiros. Não é cólica, nem gases. É o choro de estar em um ambiente estranho. É, às vezes, vontade de ser amado apesar de. Porque também precisamos ser amadas apesar do nosso corpo disforme, da nossa alma perdida, dos nossos olhos que vertem lágrimas. Precisamos ser amadas apesar dos lábios que não sorriem e do cabelo há dias sujo.

 

Existe um segredo: mesmo que você não tenha escolhido ter um filho, mesmo que seja difícil, escolha ser feliz, com as pequenas vitórias diárias. Escolha fazer de seu filho um companheiro de vida. Caminhe na rua, cante para ele e para a criança pequena que habita em você e se sente perdida, impotente e decepcionada com seu novo brinquedo, que não funciona como o comercial da televisão fez acreditar que funcionaria.

 

Essa é a vida real. Esse é o puerpério. Não deixe de pedir ajuda, de ligar para as pessoas que você ama. Não deixe de chorar. Somos um bibelô de cristal que foi quebrado em milhares de cacos. Junto com o que fomos, pedaços de fragmentos de uma nova vida que se remontará muitos meses depois.

 

A vida não será igual, mas não quer dizer que será pior. Muito provavelmente depois de passar por esse mangue lamacento você vai achar sua jornada incrivelmente linda. Porque ela é, como você.

Vai descobrir, depois de um dia exaustivo, a delícia de receber o primeiro sorriso. E saborear a sensação incrível de ver seu bebê crescer e engordar, apenas com seu leite.

De todas as qualidades que a maternidade nos traz, a humildade é o maior presente que ganhamos.

 

Aprendemos o valor de uma noite de sono, de um abraço apertado, de um telefonema amigo, de um copo de água, de um braço generoso que segura o seu. Aprendemos que somos feitos dos pequenos prazeres, dos míseros avanços e que isso é muito.

 

Tornamo-nos mais gratos, porque alguém fez o mesmo por nós, com todos os erros e o maior dos acertos: o amor. É ele que nos faz seguir pelos dias escuros.

A boa notícia é que tudo isso passa rápido. E um milagre acontece. Acredite, você vai esquecer e até sentir saudades.

 

Só posso lhe dizer para curtir esse pequeno ser; eles crescem rápido demais. E quando você menos esperar, ele estará voando longe do seu ninho por tanto tempo que você vai sentir falta da época em que só você era o mundo dele.

 

...

Kalu Brum é jornalista, doula, fotógrafa e poeta.
Escreve no blog
vilamamifera.com/olharmamifero/

 

 

“Puerpério. Cordão umbilical cortado, fio do amor ligado para sempre. A vida muda. Somos um fragmento biológico e poético. Uma solidão de quem nunca está só. Um silêncio cheio de ruídos. Rasgam-se os tecidos da carne e se refazem os tecidos espirituais. Somos um caleidoscópio composto pelo vidro da mulher que fomos, com quem hoje somos. Esse caleidoscópio gira a cada mamada, a cada choro que não acalentamos, no corpo vazio. Gira e com a luz nos transforma na mulher selvagem que nunca mais dorme. Desperta em mim a mulher selvagem que cheira, lambe e cria.”

 

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