Planeta

31/10/2013 04h37

Do colapso à regeneração: o desafio ecológico do nosso tempo

Recursos do planeta estão cada vez mais escassos e pedem mudança de comportamento

Por Nosso Bem Estar

STOCK.XCHNG/DIVULGAÇÃO/NBE
Do colapso

Com 7 bilhões de pessoas na Terra, nunca se falou tanto nos limites físicos do planeta. No entanto, é evidente a falta de vontade política para se discutir o futuro de maneira responsável. Nos encontramos num momento de crise econômica, exacerbada pela pressão cada vez maior sobre os recursos naturais; nele vê-se a ampliação da pobreza, a redução da segurança, a continuidade de conflitos violentos, e a degradação ambiental sem precedentes.

Especialistas apontam que alcançamos um ponto crítico, e que, e é fundamental que modifiquemos nossos padrões de produção e de consumo. A humanidade encontra-se hoje perante duas realidades:

Colapso
Do latim collapsus. 1. Fracasso, esgotamento, acidente, pane, enguiço; 2. Estado de crise, paralisação, ruína, desmoronamento ou extinção de algo.

A demanda por recursos naturais dobrou desde a década de 1960. A biodiversidade encolheu 30% em todo o mundo, vítima do avanço das atividades humanas sobre florestas e oceanos, como mineração, agricultura e pesca. O desenvolvimento tecnocientífico, dissociado da consciência ecológica, fez com que saqueássemos os recursos naturais numa escala sem precedentes.

E a ruptura entre o trabalho e o cuidado fez com que o afã desmedido de produção se revertesse na ânsia incontida de dominação das forças da natureza. Vangloriamo-nos com a ilusão de progresso, vendo números e estatísticas, sem atentar para o fato de que somente avançamos no campo tecnocientífico e não na ética, na política, nas artes, na educação, na cultura, na humanidade.

Já não podemos prosseguir com a perversa lógica do capital, baseada no acúmulo de riquezas por poucos, na ostentação e no desperdício. Quem não tem quer; quem tem quer mais; quem tem mais diz que nunca é suficiente (onde haveremos de chegar assim?)

“Eco-suicídio” é o termo que especialistas usam para designar a incapacidade de se entender a fragilidade do meio ambiente, combinada com a ganância desmedida, que leva à exploração dos recursos naturais muito além do limite sustentável. Destrói-se a natureza para se guardar dinheiro em cofres de bancos.

A nossa voracidade consumistas desmedida e quase generalizada tem dilacerado o patrimônio ambiental com tal ímpeto que será sentido por muitas gerações adiante. Os atuais padrões de extração, produção, consumo e descarte, mostraram-se insustentáveis, além da capacidade de reposição e regeneração do planeta.

A pegada ecológica que deixamos. Montanhas de lixo e resíduos, eis o que mais produzimos atualmente. E poucos levam em conta que o tempo médio que leva para se decompor na natureza o que jogamos nas ruas, nas praias, nos mares. Plástico: de 200 a 400 anos. Fralda descartável: 450 anos. Pilha: até 500 anos. Vidro: indeterminado. Quantidade de pneus produzidos no mundo anualmente: 900 milhões. Tempo que os pneus levam para se decompor na natureza: indeterminado.

O egoísmo e imediatismo nos fazem pensar de forma mesquinha. Devemos começar a cultivar a solidariedade intergeracional, para com os que virão depois de nós. Eles também precisarão satisfazer suas necessidades, e habitar um planeta minimamente saudável. Hábitos e atitudes. Há sempre uma escolha para cada grande desafio. Seremos capazes de modificar nossos hábitos, e responder à altura aos desafios que enfrentamos?

Somente nos EUA, cerca de 426.000 celulares são jogados fora semanalmente, trocados por modelos mais novos. Quase todos os aparelhos descartados encontram- se em perfeitas condições de uso. A vida útil hoje de um celular, da aquisição ao descarte, é de 7,5 meses.

A Terra está manifestando sinais inequívocos de que já não aguenta mais. O temor e assombro diante de forças que não podemos enfrentar, – que não se sujeitam a negociação ou controle – é crescente. Atualmente, quase 900 milhões de pessoas em todo o mundo encontram-se sem acesso a fontes de água limpa. 900 milhões de sedes que não poderão ser saciadas com a simplicidade de um copo de água potável.

A escassez de água potável já causa 1.6 milhões de mortes por ano, além de crescentes disputas e conflitos bélicos. A água já é tratada por muitos especialistas como “ouro azul”, cuja crescente escassez começa a ocasionar amplos deslocamentos de refugiados climáticos. (Imagem: num vilarejo, mulheres percorrem longas distâncias em busca de água.) O que está em jogo neste crucial momento que atravessamos é o destino do processo civilizatório, o futuro da vida no planeta.

Regeneração
Regenerar: Fazer-se novo. Curar, recuperar

Um dos desafios imediatos que devemos enfrentar é educar as crianças, as futuras gerações, de modo que possam lançar um olhar generoso sobre a vida. Que saibam vivenciar um novo paradigma de relacionamento com o mundo e com todos os seres. Que possam enxergar a beleza e a poesia que repousam na natureza, e respeitar os seus limites e a sua fragilidade.

Tradições remotas ensinam que o mundo é um jardim, e o ser humano um cuidador, um jardineiro. Devemos cultivar e cuidar da Terra com sabedoria e senso de justiça, estética e bondade. Devemos ensinar isso às crianças, reforçar outros valores que não os do ter, consumir, acumular. O universo caminhou 15 bilhões de anos para produzir o planeta que habitamos, essa admirável obra que nós, seres humanos, recebemos como herança, para preservar e cuidar como guardiões e fiéis jardineiros.

Temos que lembrar que o caminho da triste decadência, na qual o mundo enveredou, não leva consigo todos. Aqui e ali brota a consciência, bela e esplendorosa como sempre, eternamente livre. Apesar do mundo que diante de nossos olhos se apresenta, é necessário prosseguir trabalhando por outros mundos possíveis.

Num mundo onde impera quase exclusivamente o culto ao consumo, à aparência e à posse, procurar cultivar a vida moral, a interioridade, resgatar a compaixão, a espiritualidade e o respeito à natureza e todas as formas de vida, é cada vez mais importante. Devemos gravar na alma o antigo ditado indígena que nos ensina: “Anda com mansidão sobre a terra – ela é sagrada. Ame, e siga sua bem-aventurança.”

A superação da atual crise haverá de nos conduzir para a fundação de um novo ensaio civilizatório. Caminhos que levam a outros mundos possíveis. Onde ecologia exterior e interior se harmonizarão, e devolverão equilíbrio e paz à Terra. E se realizará nosso anseio ancestral pela verdade, pelo bem, pelo belo, pelo afeto, pelo sagrado. Junte-se à grande onda que por todos os lados se forma, da preservação, do amor e do respeito. “Damos voltas e voltas, mas, na realidade, só há duas coisas: ou você escolhe a vida, ou se afasta dela.” José Saramago.

 

Fonte: Jornal Bem Estar

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