Saúde Integral

06/05/2015 06h39

Comida que cai mal

Viver sem leite nem pão. Moda, necessidade ou filosofia? Conheça o universo complexo por trás da nova onda de alergias e intolerâncias alimentares

Por Nanda Barreto/Nosso Bem Estar

IStock/NBE
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Manter uma dieta diversificada é fundamental para o equilíbrio nutricional

Você já deve ter notado: nos últimos tempos, pipocou o número de pessoas que riscaram o glúten e a lactose da dieta. Parece até moda. No entanto, a realidade por trás dessa tendência mundial é muito mais complexa.

“Pode haver um pouco de onda do momento, sim. E não podemos negar que há mais informação disponível sobre o assunto também. Mas está claro que o consumo exacerbado de leite e trigo tem consequências no funcionamento do nosso organismo”, defende a nutricionista funcional Maribel G. Melos.

Na opinião de Maribel, a questão precisa ser avaliada individualmente. “Nós não somos iguais e portanto não deveríamos nos alimentar de maneira igual”, reforça. O fato é que a população com alergia e intolerância a glúten quadriplicou desde a década de 50. Uma das chaves para este aumento exponencial, aponta Maribel, está na “monotonia alimentar”. Encontrado em alimentos saborosos como pães, pizza, massas e também na cerveja, o glúten é o nome convencional dado a subfrações de proteínas contidas especialmente no trigo. Já a lactose é um tipo de açucar presente no leite e seus derivados, como queijos, requeijão, nata e leite condensado.

Ou seja, o glúten e a lactose ocupam um lugar de destaque na dieta cotidiana de grande parte das pessoas. Muitas vezes, o problema mora num exagero sobre o qual não nos damos conta. “Se a pessoa come pão pela manhã, biscoito à tarde e pizza à noite, é bem possível que isso resulte em um desequilíbrio nutricional e ela acabe desenvolvendo uma sensibilidade à proteína. O mesmo acontece com o leite”, explica Maribel.

A especialista em Saúde Pública e Nutrição Funcional, Melissa Suarez, complementa: “Essas alergias podem estar associadas a padrões genéticos, baixa imunidade e/ou a hábitos alimentares. Além disso, o leite que ingerimos passa por processos que alteram sua estrutura natural, acabando com bactérias e enzimas essenciais para uma boa digestão e absorção deste alimento. Assim acontece com o trigo também”.

Doença celíaca e sensibilidade não celíaca
Há, entretanto, diferentes níveis de alergias e intolerâncias, e também a doença celíaca - uma enfermidade na qual o revestimento do intestino delgado fica cronicamente prejudicado pelas proteínas do glúten, bem como a sua interação com o sistema imunológico. “A doença celíaca deixa a pessoa autoimune ao glúten, que agride a sua flora intestinal”, explica Maribel.

A sensibilidade ao glúten e à lactose pode se manifestar em consequências como gases, infecções abdominais e desconfortos digestivos. Os sintomas variam conforme a idade. Em crianças, os mais evidentes são diarreia ou constipação, refluxo, baixo peso e alterações no desenvolvimento. “Em adultos também podem ocorrer alterações no humor a desconfortos gastrointestinais, dores de cabeça, fadiga, distensão abdominal, dislipidemias, sintomas dermatológicos, sensibilidade a doenças inflamatórias, como artrite”, elenca Melissa.

Através de anamnese, restrição alimentar e exames específicos de sangue é possível identificar sensibilidades e alergias. “Quem diagnostica a doença celíaca precisa retirar o glúten da sua dieta. Já a sensibilidade não celíaca ao glúten pode ser controlada com uma dieta mais diversificada. Cada caso é um caso. Não se trata simplesmente de retirar o glúten ou o leite da dieta, pois isso pode resultar em desequilíbrio nutricional”, reforça Maribel.


IStock/NBE

A especialista alerta para o fato de que os testes alérgicos devem ser feitos sob orientação profissional. “Geralmente retiramos o alimento suspeito da dieta por 20 ou 30 dias e depois a pessoa volta a consumi-lo 2 ou 3 vezes num mesmo dia e aí observamos os resultados.” Também é possível realizar um exame chamado bioressonância eletromagnética - ou vegateste - que detecta a deficiência de vitaminas, minerais, alergias alimentares e presença de elementos tóxicos no organismo.

Sentindo na pele
O professor gaúcho Vicente Medaglia, 31, confirmou a suspeita de intolerância ao glúten com o vegateste. “Fiz o exame há uns 10 anos. Tenho intolerância a glúten e a lactose. Com o glúten, me sinto desenergizado quando abuso, mas tenho sido mais tolerante​, acredito que por ter seguido uma dieta mais rígida durante anos. A lactose me enche de secreção nasal”, salienta.

Vicente conta que não é tão simples conviver com esta restrição. “É bem menos prático não comer pão. Além disso, em viagens é muito difícil fugir de comer trigo e leite. Em geral, comer fora é complicado, principalmente se não se come carne vermelha, como eu.” O psicólogo paulista João Jaava (*), 42, compartilha essas dificuldades: “Muitas vezes você não consegue nem viajar. Fazer lanche na rua é muito difícil. E, claro, comer na casa dos amigos pode virar uma lenda”.

Os testes clínicos de sensibilidade alimentar fazem parte da vida de João há quase uma década. “Eu já percebia a intolerância há muito tempo, mas foi só em 2007 que comecei a retirar os alimentos do cardápio para observar os resultados. Eu sou intolerante a glúten, laticínios e soja. Eu tenho percebido intolerância à proteína vegetal, ou seja, às leguminosas em geral. As minhas intolerâncias pioraram muito de outubro para cá. Eu ainda estou tentando me adaptar com essas mudanças ou buscar maneiras de reverter essa situação”, conta.

João é adepto da terapia helmíntica desde janeiro de 2012. Ainda indisponível no Brasil, o tratamento age através da introdução de helmintos ou de fungos dermatófitos na mucosa intestinal para suprimir as reações imunológicas hiperativas. “É uma terapia experimental para diversas doenças autoimunes ou com componentes autoimunes, como asma e síndrome do intestino irritado. O tratamento, feito na Inglaterra, na Alemanha e no México, tem bases científicas significativas”, explica o psicólogo, que mantém um blog em português sobre o assunto. (Clique aqui patra saber mais!)

Conviver com limites
Para João, a única consequência positiva da intolerância alimentar é conseguir auxiliar quem está se deparando com a mesma situação. “Com o tempo você se torna um expert na área e aí pode ajudar outras pessoas que estão começando a enfrentar esse problema. Os efeitos negativos são inúmeros, inclusive a saúde da gente acaba ficando um pouco para trás. Não tem jeito, pois o mundo está todo feito para pessoas que não têm os problemas que a gente têm”.

Vegana e sensível à lactose, a professora de yoga Mônica Caniatto, 49, acredita que também é possível buscar uma convivência amigável com a intolerância. “Não me atrapalha, pois quem me conhece já sabe que não consumo carnes, leite e ovos, então quando me convidam para sair escolhemos sempre algum lugar que tenha alternativas de alimento que eu possa comer ou quando é um encontro na casa de amigos e parentes, eu sempre levo pratos veganos! Mas quando vou a lugares que sei que não vou encontrar nada para comer, me alimento antes de sair de casa numa boa!”

 


Dave Pot/IStock/NBE

Inimigo oculto
É importante notar que “o pão nosso de cada dia” não é mais o mesmo. A nutricioniosta Melissa Suarez alerta para a realidade de modificações genéticas que o processo de produção do trigo - e também do leite - vem passando nas últimas décadas. “A semente disponível hoje passou por inúmeras alterações genéticas e, consequentemente, tem mais glúten em sua estrutura. Assim, acaba sendo mais difícil de digerirmos. Essas mudanças interferem na nossa imunidade nos deixando mais suscetíveis a toxinas”.

De acordo com Melissa, tudo isso acarreta em má digestão. “Atualmente já existem estudos relacionando alergias alimentares com o aumento do consumo de alimentos industrializados, transgênicos, alimentos com aditivos agrícolas e irradiados. Assim, a digestão acaba exigindo do corpo enzimas específicas além de um aporte de minerais e vitaminas para serem metabolizadas de forma efetiva. Além disso, essas mudanças causam pequenas mutações celulares, alterando a capacidade de metabolizar moléculas complexas como a lactose e o glúten”, detalha.

Há tempos o hábito de ingerir leite de vaca gera controvérsias. Enquanto algumas pesquisas apontam o consumo do leite como um dos pilares da boa alimentação, outras recomendam que adultos excluam o alimento da sua dieta. Maribel chama a atenção para uma questão fisiológica. “O leite de hoje está muito modificado, sim, mas a verdade é que o ser humano não precisa ficar ‘mamando’ a vida toda. Somos os únicos mamíferos que continuam ingerindo altas doses de leite depois de adultos”, sustenta.

Solidariedade em rede
Lidar com as transformações no cardápio não é uma tarefa simples para principiantes. Uma das formas mais comuns de diálogo entre celíacos, alérgicos e demais sensíveis ao glúten e à lactose é encontrada na internet. Há diversos grupos de intercâmbio de experiências na rede, com trocas de receitas, relatos e dicas de alimentação.

João Jaava frequenta grupos online de abrangência internacional para buscar orientações e esclarecimentos. Mônica também usa a rede. “Tem muitos sites e comunidades que falam sobre o assunto. Minha experiência tem me mostrado que é possível viver sem consumir leite e derivados pois hoje muitas pessoas são alérgicas, então já existe um mercado voltado para esse público. Graças a Deus!”, ressalta a paulista.


Mercado especializado
De olho no mercado sem lactose e glúten, cresce o número de empreendedores que abrem as portas de lojas, cafés e também clubes de consumo especializados, principalmente com venda de lanches ou alimentos para preparar em casa. Os restaurantes exclusivos ainda são raros. Nesse sentido, o espaço Gourmet Saudável, em funcionamento há 8 meses em Porto Alegre, é uma exceção atrativa.

De acordo com a nutricionista Melissa, que é sócia-proprietária do restaurante GS, a ideia de abrir o espaço veio da sua vontade de oferecer uma alimentação orgânica e viva para o público. “As pessoas querem se alimentar melhor, mas não sabem cozinhar e/ou não têm tempo de preparar sua comida, assim acabam consumindo produtos alimentícios em vez de alimentos. Queremos mostrar que precisamos ir mais além e conhecer o que estamos comendo, entender a repercussão de nossas escolhas alimentares no nosso corpo, na nossa mente, nas nossas emoções e no nosso planeta”, explica.

Eu sou free, sempre free, glúten free demais
Levar uma dieta sem glúten pode ser exigente pela falta de opções na rua, mas gera mais autonomia e amplia a criatividade na cozinha. Aliás, este é um aspecto celebrado pelo público glúten free. “É preciso mudar hábitos e ter perseverança para transformar a alimentação. Eu como mais frutas, aprendi a fazer pão sem glúten e preparo meu alimento em casa”, salienta Vicente. Mônica também tem suas dicas. “Fundamental é levar lanchinho, se for passar o dia todo fora tem que perder um tempo para preparar o que vai ser consumido no almoço (marmitinha) e também nos intervalos”, sugere.

* Nome fictício a pedido do entrevistado.

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