Família

13/01/2015 13h28

A imensurável beleza do primeiro clique

Intimistas e tocantes, ensaios fotográficos de nascimentos eternizam momentos inesquecíveis e encorajam mulheres a decidir pelo parto humanizado

Por Nanda Barreto/Nosso Bem Estar

Débora Amorim
Ana lemos(1)

Lentes atentas e sensíveis para registrar a chegada de Clara

O parto humanizado e domiciliar tem ganhado força no Brasil. Na luta contra o sistema vigente - que transforma o nascimento em um ato cirúrgico centrado na figura do médico - , diversas mulheres tem publicado fotos e vídeos dos seus partos na internet. São imagens tocantes, que mostram a mulher como protagonista deste momento. O objetivo é compartilhar a experiência e encorajar outras gestantes a seguir por este caminho.

Assistir imagens assim foi fundamental para a Gerente de Social Media Ana Lemos Rosa (foto à esquerda) decidir ter seu bebê em casa e contratar uma fotógrafa para registrar o momento. "Eu não me perdoaria se eu não tivesse essas memórias, tão lindas, desse momento que foi tão sonhado. Além disso, eu gostaria muito que meu vídeo e minhas fotos pudessem inspirar outras pessoas, como aconteceu comigo", ressalta.

 

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A escolha da profissional veio pela indicação de amigas. A pequena Clara, que hoje tem 11 meses, nasceu sob o foco sensível da fotógrafa Débora Amorim. "Ela foi maravilhosa. Chegou e, como um fantasma, andava pelos cômodos sem incomodar ou ser vista. Eu não esperava que fosse encontrar no olhar delicado dela, a expressão da minha emoção", recorda Ana.

Mãe, doula, acupunturista e professora de alongamento para gestantes, Débora conhece bem o universo dos nascimentos. "O fato de eu ter esta vivência dá mais confiança para a gestante, pois ela já imagina que eu não vou atrapalhar nem interferir na hora do parto. A fotografia em si já é um pouco invasiva, então é fundamental manter o respeito. Qualquer interferência pode quebrar a genuinidade do momento", ressalta Débora.

O clique na hora H
A atriz Fernanda Rocha, mãe do Otto (vídeo), de 1 ano e dois meses, também teve o parto fotografado por Débora. Ela conta que ficou super à vontade. "Na verdade eu nem lembrava que tinha uma câmera ali. E olha que eu trabalho com isso! Cada vez que vejo as fotos sinto uma sensação nova. Poder reviver o parto é ótimo. Imagino quando o Otto estiver grande, o barato que vai ser ele ver as fotos! Para sempre aquelas fotos ficarão como o registro da nossa grande chegada nessa nova vida", destaca Fernanda.

Já Ana confessa que, na última hora, chegou a questionar a sanidade da decisão de ser fotografada. "No parto ativo, suada, com dor e desconfortável, eu dizia para mim mesma que era uma ideia de jerico ter contratado alguém para me fotografar! Eu estava me sentindo muito feia, não imaginava que ela pudesse tirar nada de bom daquilo ali", conta, divertindo-se. O resultado do ensaio fotográfico, no entanto, deixou Ana encantada e orgulhosa. "Hoje sinto uma alegria imensa ao ver estas imagens. Além do que me acho linda nas fotos!".

Foco histórico
Mãe de três pequenos (Maria Alice, 6 anos, Maria Rosa, de 4 anos, e do Gabriel de 1 ano e 8 meses), a gestora pública Mariana Carvalho optou por não contratar um serviço fotográfico. O registro dos partos de Mariana é também uma documentação histórica do fortalecimento do parto humanizado ao Brasil.

"Os dois primeiros registros foram familiares. Foram duas cesáreas indesejadas. Já o terceiro foi um parto normal, humanizado, e quem fez as fotos foi a doula. Eu fiquei um pouco na dúvida sobre contratar uma profissional, eu achei que ia ficar muita gente, que poderia não ficar muito natural e optei por pedir para a minha doula tirar as fotos", conta.

Hoje em dia, ao ver as fotos, Mariana revive uma profusão de sentimentos. "Quando olho as fotos da chegada da Maria Alice e da Maria Rosa eu sinto um pouco de melancolia e frustração. Apesar de ter sido um momento de nascimento, as imagens são muito fortes no sentido de ter como cenário um centro obstétrico cirúrgico. Eu estava numa maca, deitada, de pernas abertas, sem ver nada do que estava acontecendo, com medo", relembra.

Já com as imagens do parto em casa, a sensação é totalmente diferente. "Vendo as imagens do terceiro parto eu  fico muito feliz. Foi um momento de muitas conquistas, muito afeto. O Biel nasceu na água, sem nenhuma intervenção, num parto hospitalar", ressalta. A realização de Mariana também vem do fato de poder compartilhar estas imagens com outras mulheres. "Eu mostro estas imagens para o mundo! Vejo as fotos com muita alegria, fico realizada! Eu abracei a luta pelo parto humanizado e contra a violência obstétrica como uma bandeira".

A fotógrafa Débora Amorim também passou por uma cesárea indesejada, há quase 8 anos. "Não foi uma opção, mas quando a gente não tem conhecimento fica difícil contrapor as desculpas que os médicos dão e então acabamos aceitando e achando que realmente é um fator de risco para o bebê", lamenta.

Um Brasil que renasce
O Brasil é campeão mundial de cesarianas. O percentual de partos cesáreos chega a 84% na saúde suplementar. Na rede pública, este número é menor, de cerca de 40% dos partos. A Organização Mundial de Saúde (OMS) recomenda que essa taxa não ultrapasse 15%, sob o risco de graves consequências maternas e perinatais. A cesariana, quando não tem indicação médica, ocasiona riscos desnecessários à saúde da mulher e do bebê: aumenta em 120 vezes a probabilidade de problemas respiratórios para o recém-nascido e triplica o risco de morte da mãe. Cerca de 25% dos óbitos neonatais e 16% dos óbitos infantis no Brasil estão relacionados a prematuridade.

Mas a boa notícia é que a luta das mulheres tem resultado em avanços. Aos poucos, as coisas vão mudando. Nos últimos dias, o governo brasileiro publicou uma resolução que estabelece normas para estímulo do parto normal e a consequente redução de cesarianas desnecessárias na saúde suplementar.

As novas regras ampliam o acesso à informação pelas consumidoras de planos de saúde, que poderão solicitar às operadoras os percentuais de cirurgias cesáreas e de partos normais por estabelecimento de saúde, por médico e por operadora.

 

Nascimento do Otto from Gesto Natural on Vimeo.

 

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