Planeta

28/10/2013 23h26

Ideias inteligentes para reciclagem

Cidades como Barcelona dão exemplo ao premiar quem recicla e taxar empresas que poluem

Por Nosso Bem Estar

ISTOCKPHOTO.COM/RANDY PLETT PHOTOGRAPHS/NBE
Tn ideias inteligentes

Carlos Pérez García, morador de Salamanca, na Espanha, ganhou um prêmio de 6 mil euros por separar embalagens de plástico, de alumínio e de Tetra Pak que usa no dia a dia. Ele participou da campanha ‘Uma Boa Ação Se Premia Com Outra’, criada pela Ecoembalajes España (Ecoembes), uma organização que reúne 12.200 empresas como Coca-Cola, Colgate-Palmolive, Gillette, L’Oréal e outras que usam papel, papelão, alumínio, plástico ou tetra pak nas embalagens dos produtos.

“Queremos aumentar a participação das pessoas e também dar credibilidade ao sistema de coleta seletiva”, diz Juan Alonso de Velasco, chefe de marketing e comunicação da Ecoembes. A sacola deixada por García continha uma etiqueta com seus dados. Enquanto o material que ele separou seguia para a reciclagem, a etiqueta era enviada para um sorteio. García e outros dois espanhóis foram premiados.

Premiar quem se preocupa com o lixo é uma das ideias que têm ajudado a Espanha a se tornar um modelo de eficiência na destinação de resíduos sólidos. Em Barcelona, quase 50% do lixo residencial é separado para a coleta seletiva e usado como matéria-prima para reciclagem. É um número alto até para as grandes cidades europeias. É mais que o dobro do que se recicla em Lisboa – e quase dez vezes mais que a taxa de reciclagem de São Paulo.

Reciclar é importante para o meio ambiente por diversas razões. A prática diminui o consumo de água usada na fabricação dos produtos, reduz o gasto de energia e ainda poupa a matéria-prima empregada nas embalagens, como os plásticos derivados do petróleo. A reciclagem do lixo em Barcelona e nas cidades vizinhas evitou a emissão de 100 toneladas de gás carbônico, um dos principais causadores do aquecimento global.

Cerca de 52 mil toneladas de materiais como aço e vidro foram poupadas, assim como a madeira e celulose que viriam da derrubada de 1,2 milhão de árvores. A água economizada, 4,8 bilhões de litros, equivale a quase 2 mil piscinas olímpicas.

Como Barcelona conseguiu tamanho sucesso na reciclagem?  Além de oferecer um serviço eficiente de coleta seletiva, a capital catalã montou um sistema que responsabiliza os fabricantes pelo destino fi nal de seus produtos. As obrigações são defi nidas por uma lei. Para atender às exigências, alguns setores da indústria resolveram se unir em organizações voltadas para a gestão do lixo. Além da Ecoembes, foi criada a Ecovidrio, grupo de mais de 2,3 mil empresas que usam vidro para embalar seus produtos.

Entre elas estão a cervejaria Heineken, a destilaria Bacardi e a Federação Espanhola do Vinho. As empresas associadas pagam às respectivas organizações uma taxa que varia de acordo com o material usado nas embalagens, o tamanho e a quantidade colocada no mercado. A taxa financia o sistema de recolhimento e reciclagem, que é feito em parceria com as prefeituras. Só na região de Barcelona há 32 municípios envolvidos na coleta seletiva.

Os produtos são identificados com um símbolo, o “Punto Verde” (ponto verde). É um sistema similar ao de países como Alemanha, França e Grécia. “Quem compra sabe que adquire um produto feito com material reutilizável”, diz Pedro Antonio García, diretor de relações institucionais da Coca-Cola España. O preço final pode ser um pouco mais alto, uma vez que o fabricante embute a taxa paga à organização que monitora o destino do lixo. Mas o valor é praticamente imperceptível, porque a reciclagem reduz outros custos envolvidos no processo de produção.

Além disso, o ponto verde aumenta o apelo do produto. “Tudo o que é feito para incentivar a reciclagem é bem-visto pelos consumidores”, afirma García. Em Barcelona já existem sites em que os “ecointernautas” trocam experiências e dão dicas sobre sua rotina de reciclagem.

A relações públicas brasileira Mônica Faria, de 27 anos, faz parte de uma dessas comunidades. Há quatro meses morando na capital catalã, habituou-se a levar o lixo para os locais de coleta. “Posso estar arrumada, maquiada, cheirosa. Não importa. Saio com a sacola de lixo na mão para depositar na lixeira”, afirma. “Não adianta reclamar do aquecimento global se não tomarmos nenhuma atitude.”

No Brasil, país que é recordista na reciclagem de alumínio, a coleta seletiva ainda é pouco disseminada. Na prática, quem coleta o material reciclável do lixo residencial são catadores. Organizados em cooperativas, eles trabalham em condições de subemprego – e não como parte de uma estratégia para os resíduos sólidos. Implementar práticas como a dos sorteios e criar leis para o descarte de embalagens pode ser um estímulo para que o brasileiro refl ita sobre o lixo que produz e o impacto que ele tem sobre o planeta.

 

Fonte: Jornal Bem Estar

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