Família

21/05/2020 12h00

Remexer gavetas, abraçar saudades e quebrar espelhos

Quem somos e para onde vamos quando ninguém nos vê?

Por Nanda Barreto

Pixabay
Design sem nome(1)

Remexer gavetas, abraçar saudades e quebrar espelhos

Visitar minhas coletâneas de bons momentos é uma estratégia que tenho adotado para amenizar as saudades neste período de isolamento. Maio chegou me trazendo dois meses em quarentena. Algumas semanas avançam mais bruscas, outras mais mansas, mas todas têm sido imprevisíveis. Estamos em suspenso e o futuro depende de um dia de cada vez.

Somos muitos - senão todos - que estamos recorrendo ao poder das lembranças para enfrentar estes tempos tão duros. Vocês também devem ter notado: há uma enxurrada de brincadeiras circulando nas redes sociais. Perceberam que quase todas evocam memórias? "Como você me conheceu?", perguntam alguns. "Mesmo que a gente não conviva muito, diga uma recordação que você tem comigo", provocam outros.

Essas são questões que andam circulando bastante na minha timeline e no meu coração. Toda esta onda de brincadeiras me fez refletir sobre o quanto o olhar do outro é uma bússola pra nós. No fundo, queremos acessar testemunhas da nossa própria história. É que a memória constitui nossa identidade. Aquilo que fomos, somos e seremos depende em grande parte deste patrimônio de memórias coletivas e individuais.

Nesta temporada em que a não-convivência tornou-se uma questão de sobrevivência, acredito que estas fotografias mentais alheias têm sido um alento para a falta que estamos sentindo não apenas uns dos outros - mas também de nós próprios, naqueles maravilhosos e cotidianos dias em que podíamos andar livremente por aí, construindo nossa trajetória sem implicar riscos à vida de ninguém.

As saudades são uma constante aqui no meu peito e sei que este mês vai ser doloroso: além do convencional dia das mães, é aniversário da minha. Meus planos originais eram viajar de Brasília para celebrar, cheirar e dar abraços demorados na dona Marion, que mora no litoral Norte gaúcho. Sei que este momento de reencontro vai ao largo e, por enquanto, não há como prever quase nada.

Muitas vezes me sinto frustrada por isso - e outras situações similares. Mas acolher meus sentimentos tem sido um aprendizado importante, intensivo e inadiável. Tento validar cada emoção e dar voz pra tudo que bate à minha porta de dentro pra fora. As dores no corpo me falam sobre a carência de ser vista e tocada. Afinal, quem sou eu quando ninguém me vê?

Tenho saído quase nada de casa. Sinto falta da natureza, calor humano, conversas sem delay e cafuné. Algumas vezes penso que adoraria estar no mato, plantando esperanças. Mas semeio e cultivo com o que tenho ao meu dispor. Tem dias que as tristezas se instalam na minha sala de ser e estar. Sempre que posso, ofereço um chá de lágrimas pra estas danadas. Também realizo assembleias periódicas com os medos.

Diariamente, cozinho com as incertezas matraqueando nos meus ouvidos. Para cada pergunta acerca do que virá, a resposta mais sincera é um estrondoso não sei. Enredada nas minhas memórias, nestes tempos de escuridão, busco manter uma vela acesa no meu peito e dançar com as sombras que esta pequena luz traz: é o baile da solitude - varrendo cacos, quebrando espelhos e me convidando a viver enraizada no aqui e agora.

 

Nanda Barreto é jornalista, instrutora de yoga, feminista y otras cositas más! Nas redes sociais, é
@transitivaedireta. Na vida real, é poeta.

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