Beleza

27/09/2017 06h30

A Beleza Adormecida

Uma série de aforismos, do famoso criador multimídia Andy Warhol, nos faz lembrar que nossa beleza – interna ou externa – é uma realidade essencial que se manifesta quando temos o valor de acreditar nela.

Por Andy Warhol

Pixabay
M22 beleza

Um olhar sobre a beleza...

Nunca conheci alguém que eu não pudesse chamar de belo/a. Todas as pessoas têm beleza em algum momento de sua vida e, geralmente, em diferentes níveis. Às vezes a tem quando são bebês e a perdem quando crescem, mas voltam a recuperá-la quando envelhecem. Ou podem ser gordos, mas ter uma cara bonita. Ou ter pernas tortas, mas um lindo corpo. Ou, ao contrário, ser a mulher-beleza número um e ter seios pequenos. Ou ser o homem-beleza número um e ter um “pipi” pequeno.

Me acostumei a sempre dizer: “Ela é uma beleza” ou “Ele é uma beleza” ou “Que beleza!”, mas a verdade é que nem sei do que estou falando. Sinceramente, não sei o que é a beleza, e não sei o que falar sobre a beleza. Isto me coloca numa incômoda posição, porque me conhecem por eu falar “a beleza deste” ou “a beleza do outro”. Certa vez foi publicado, em todas as revistas, que meu próximo filme seria As Belezas. A publicidade foi boa, mas logo depois eu não conseguia decidir quais pessoas poderiam participar! Se nem todos são beleza, então ninguém é. Por isso eu não quis considerar que os rapazes de As Belezas eram belos, enquanto que os rapazes dos meus filmes anteriores não eram. E por esta razão, foi que cancelei tudo, em função desse título.

A verdade é que não me interessam muito as “belezas”. Gosto, sinceramente, é dos conversadores. Para mim, os bons conversadores são belos porque adoro um bom discurso. A palavra em si mostra por que gosto mais dos conversadores do que das belezas, por que gravo mais do que filmo. Os conversadores fazem alguma coisa, enquanto que as belezas apenas estão sendo alguma coisa. Isto não significa, necessariamente, algo ruim. Porém, é melhor estar com pessoas que fazem coisas.

A beleza dorme. Como a bela adormecida. E as belezas podem ser, ainda, pouco atrativas se alguém surpreendê-las em algum momento inadequado e com alguma luz que não as favoreça.

As belezas em fotos são diferentes das belezas em pessoa. Deve ser duro ser modelo, porque muitos querem ser como a própria foto, e isto nunca se consegue. E então começam a querer copiar a foto.

Às vezes, as pessoas que sofrem um colapso nervoso, podem estar bonitas porque refletem um tipo de fragilidade no modo de se mover ou de caminhar. Colocam para fora um estado de ânimo que as deixa mais belas.

AGUENTE ESTE DEFEITO

Quando estamos interessados em alguém, e pensamos que também estão interessados em nós, acontece de mencionarmos todos os nossos problemas de beleza e defeitos, ao invés de nos aventurarmos na possibilidade de que eles nem sejam notados. Talvez seja melhor dizer que tem um problema permanente, que não se pode mudar, como as pernas muito curtas. Apenas se diz: “Minhas pernas, como certamente notou, são muito curtas em proporção as demais partes do meu corpo.” Por que dar a satisfação à outra pessoa de poder descobrir por si mesma? Uma vez tocado no assunto, pelo menos poderá estar seguro de que não se converterá, mais tarde, em assunto de relacionamento, e se isto acontecer, sempre poderá dizer: “Bom, te avisei!”

Também é bom avisar se existe algum problema temporário (uma espinha, cabelos sem brilho, olhos cansados, uns dois quilos a mais). Se não o fizer dizendo “meus cabelos estão muito feios a esta altura do mês” ou “engordei dois quilos no Natal comendo chocolates, mas emagreço rápido”, então poderiam pensar que esse problema temporário, é permanente. Por que deveriam pensar isso se acabaram de te conhecer? Lembre-se que nunca te viram antes. Por isso, depende de você usar a imaginação de como seriam vistos seus cabelos com brilho, e como seria seu corpo com dois quilos a menos, e como seria visto o seu vestido sem essa mancha de gordura.

A beleza tem a ver com o exterior. Quando alguém vê “beleza”, isso tem a ver com o gosto, com o que usam, com as coisas que estão ao seu lado, com as dificuldades que enfrentaram para chegar até ali.

As joias não tornam uma pessoa mais bela, mas fazem com que a pessoa se sinta mais bela. Se alguém cobre uma pessoa bela com joias e roupa bonita, e a coloca numa bela casa com belos móveis e quadros, esta pessoa não fica mais bela, apenas igual, mas ela pensaria que é mais bela. No entanto, se alguém escolhe uma pessoa bela e a veste com trapos, ela se sentiria horrorosa. Sempre é possível fazer com que uma pessoa se sinta menos bela.

O que torna um quadro belo é a maneira como está pintado, mas não entendo por que maquiam as mulheres! Tudo isso que se coloca nos lábios e tão pesado; batom, maquiagem, pó, sombras para os olhos. E, além de tudo, joias!

Se você é naturalmente pálida, poderia usar bastante rubor para compensar. Mas se tem um nariz grande, brinque com ele, e se você tem uma espinha, passe uma pomada de maneira que se destaque: “Aqui uso pomada para espinhas!”. Existe diferença.

As crianças são sempre belas. Todas, mais ou menos até os oito anos, se sentem bem, ainda que usem óculos. Sempre têm um nariz perfeito. Nunca vi um bebê que não fosse bonito, com feição e pele agradável. Isto também se aplica aos animais: nunca vi um animal que não fosse lindo.

FEIOS, LINDOS E INGÊNUOS

As “pessoas lindas” são, às vezes, mais propensas a te deixar esperando do que as pessoas comuns, porque existe uma grande diferença de tempo entre “lindos” e comuns. Além disso, os primeiros sabem que a maioria das pessoas os esperam, e por isso não entram em pânico se estão atrasados. Mas quando chegam, geralmente se sentem culpados, e para reparar o atraso, tornam-se mais doces, e o fato de ser mais doce é que os torna ainda mais belos. É uma síndrome clássica.

Sempre busco constatar se uma mulher cômica também é bela. Existem atrizes muito atrativas, mas se você tem que escolher entre chamá-las de belas ou cômicas, você as chamaria de cômicas. Ás vezes penso que a beleza extrema deve ser absolutamente carente de humor. Mas logo penso em Marilyn Monroe, que tinha as melhores linhas cômicas. Se tivesse tido a chance do humor, talvez tivesse achado um bom lugar para a sua comédia. E hoje estaríamos rindo dos números cômicos do show de Marilyn Monroe.

A beleza não tem nada a ver com o sexo. A beleza tem a ver com a beleza, e o sexo com o sexo.

Alguém me pediu, certa vez, que declarasse de uma vez por todas, quem era a pessoa mais bela que eu havia conhecido. Bom, as pessoas que inequivocamente são belas, estão nos filmes. E depois, quando as conhece pessoalmente, tampouco são tão belas. Na vida, as estrelas do cinema não podem estar à altura do que são na tela.

O aspecto ingênuo é o meu favorito. E se não quisesse me ver tão “feio”, gostaria de ter um look “ingênuo”. Sempre penso o que significa usar óculos. Quando alguém se acostuma a usar óculos, não se dá conta de como pode enxergar longe. Penso nas pessoas que viviam antes da invenção dos óculos. Deve ter sido estranho, já que cada um enxergava de várias maneiras, segundo o seu grau de dificuldade. Agora os óculos padronizaram a visão em 20-20. Este é um exemplo do que está acontecendo: todos começam a se parecer.

PESOS E MEDIDAS

O peso não é importante, da maneira como as revistas o apresentam. Conheço uma menina que vê seu rosto no espelho do banheiro e nunca olha para o que está abaixo dos seus ombros, e pesa uns 150 quilos, mas não o vê; ela apenas vê um rosto bonito, e por isso pensa que é uma beleza. E se ela pensa assim, eu também penso, porque geralmente aceito às pessoas a partir de sua autoimagem, porque sua autoimagem tem mais a ver com o modo de pensar do que com o que diz sua imagem objetiva. Talvez ela pese 300 quilos, ou até mais. Se ela não se importa, eu então muito menos.

Mas se você cuida do seu peso, experimente a ‘dieta Nova Iorque de Andy Warhol’: quando vou a um restaurante, peço tudo o que quero, assim tenho com o que me ocupar enquanto os outros comem. E não interessa se o restaurante é chique, eu insisto para que o garçom embrulhe a comida e, quando vamos embora, procuro na rua uma esquina para deixar o pacote, porque tem muita gente em Nova Iorque que mora na rua. Assim perco peso e me mantenho em forma, e acredito que alguém encontrará uma rã para o jantar na beira de uma janela. Mas ninguém sabe, assim como eu, que talvez elas não gostem do que pedi e deixem minha refeição pra lá, e metam seu nariz em algum lixo em busca de um pão de centeio meio comido. Com as pessoas, nunca se sabe.

 

Adaptado de The philosophy of Andy Warhol, Harvest/HBJ, Nova Iorque.

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