Crescimento pessoal

21/03/2017 06h30

Trabalhar e ser feliz, quem se arrisca?

Confira experiências de quem largou o emprego estável e confiou no próprio talento para gerar lucro e qualidade de vida

Por Nanda Barreto

ILUSTRAÇÕES ANTTO | ADOBE STOCK | NBE
M1 trabalho felicidade

Felicidade e trabalho podem andar juntos

Nômades digitais, empreendedores, profissionais autônomos e colaborativos. Conheça a história de profissionais que investem numa carreira para além das empresas convencionais. Gente que mostra como largar o emprego estável e confiar no próprio talento pode trazer novos lucros e qualidade de vida

Nanda Barreto

Todos nós dedicamos grande parte da nossa vida ao trabalho e à geração de renda. No Brasil, a maioria dos profissionais trabalha pelo menos oito horas diárias ou 44 horas semanais, como determina a legislação vigente. Então, nada mais justo do que viver o trabalho de uma maneira gratificante, bem-remunerada e ao lado de pessoas que a gente gosta, certo?

Certíssimo. Mas vamos um pouquinho mais longe. Que tal trabalhar sem hora definida, no aconchego do seu doce lar? Já imaginou produzir em um escritório colaborativo, rodeado por pessoas que você admira e confia, fazendo exatamente o que gosta? Ou quem sabe você prefira trabalhar com o pé na areia da praia, entre um banho de mar e uma pausa para a meditação?

Para alguns, estes cenários podem parecer um completo desvario em plena crise econômica mundial, mas acredite: eles são 100% reais para muita gente que deixou para trás a segurança do emprego estável e resolveu se aventurar em novos formatos profissionais.

É o caso da comunicadora e gestora de redes sociais Lis Rodrigues, 42 anos, que trocou o trabalho de carteira assinada e horário fixo pela vida de nômade digital. Paulistana da garoa, atualmente, Lis mora em Lisboa, Portugal, e também é conhecida como DJ Allix - especialmente nos festivais de música eletrônica em que participa embalando gente do mundo tudo ao som de suas composições.

De lá, ela também trabalha para empresas e ONGs brasileiras, na área de comunicação digital. Lis explica que sua vida nem sempre foi assim, tão diferentona. "Durante muitos anos eu trabalhei das 9h às 18h, como todo mundo. Em outros casos, eu tinha hora para entrar mas nunca para sair", recorda.

Há cinco anos, a designer gráfico Jaqueline Bica, 35, também ousou trocar o certo pelo duvidoso. Mesmo satisfeita com a sua vida profissional, ela sentia um chamado interno por mudanças. “Tava tudo muito bem, tava tudo bom demais, mas eu sentia que faltava tempo para fazer outras coisas, que nesta época, eu ainda nem sabia exatamente o que eram", lembra.

Diagramadora da rede de jornais Nosso Bem Estar, desde 2008 (sim, foi ela que diagramou lindamente a versão impressa deste texto que você está lendo!), Jaqueline iniciou a mudança sem fazer muitos planos. “Comecei falando com os meus chefes do Bem Estar e sugeri a eles que eu pudesse trabalhar a distância. No caso, são chefes muito amigos e aceitaram a proposta”.

Gaúcha de Santa Rosa, Jaqueline mora desde o início de 2016 em Matagalpa, na Nicarágua, onde montou uma agência de publicidade com o companheiro. "Meu namorado é do país Basco. Nos conhecemos em 2014, em Berlim, e durante as várias idas e vindas típicas de uma relação a distância, decidimos vir pra Nicarágua e abrir  a Motxuelo. Como trabalhamos juntos e somos empolgados com o que fazemos, também enfrentamos o desafio de não permitir que a vida profissional monopolize o nosso relacionamento”.

Disciplina é liberdade

Na avaliação de Lis, a disciplina é o pulo do gato para quem organiza o próprio tempo. "Tem que ter um tanto de organização e determinação para que tudo flua bem. Eu fiz um período de estudo sobre mim mesma, meu metabolismo e horários mais produtivos. Hoje em dia eu organizo minhas tarefas na noite anterior, antes de dormir".  

Na opinião da musicista, outra questão importantíssima é definir horários para fazer pausas. "Quando você é seu próprio chefe, você pode ser muito cruel consigo mesmo (risos) e não te oferecer qualquer descanso. Teve dias que trabalhei de pijama por mais de 12 horas seguidas, sem exercícios físicos ou alimentação adequada e isso não é nada saudável. Agora tenho pausas fixas durante o dia e horário definido para praticar yoga e meditar", detalha.

O olhar de Jaqueline chancela este ponto de vista. "No meu caso, eu trabalho em casa. Não tenho horário fixo. Acordo cedo, faço uma meia horinha de yoga, tomo café tranquila e não tenho que sair correndo, o que é uma maravilha. Mas tenho que ser bastante consciente dos meus atos. Me esforço para conseguir separar o meu horário de trabalho do meu horário livre e criar uma brecha para fazer coisas pessoais. Outro desafio é não procrastinar e me distrair com coisas que possam me atrapalhar, como o Facebook".

O jornalista Julio Gurgel, 40 anos, também trabalha de casa, basicamente com conteúdos para internet. Para ele a transição do trabalho convencional para o home-office não foi das mais fáceis. "Embora seja gostoso trabalhar em casa (ou de qualquer outro lugar que não seja um escritório), precisei trabalhar muito a questão da autodisciplina e do comprometimento com prazos. A gente só se dá conta de que a casa é um chamariz de distrações quando senta para trabalhar."

Ambiente colaborativo

A produtora cultural Rita Masini costumava trabalhar em casa ou em cafés quando morava em São Paulo. Atualmente, ela vive em Porto Alegre e trocou a escrivaninha do lar-doce-lar por um escritório coletivo. “Desde o início de 2016, senti vontade e necessidade de ter um espaço fora de casa para trabalhar, já que tenho dois filhos que vão à escola somente uma parte do dia. Visitei alguns coworkings da cidade e acabei encontrando uma sala em um espaço coletivo de trabalho, onde estou hoje”.

Nesta casa funcionam três empresas: uma agência de atores, uma produtora de áudio e a sua produtora, a Rima Cultural. “Nós trabalhamos com projetos culturais e gerenciamento de carreira de alguns artistas. Nossa relação é muito boa! Estamos inclusive desenvolvendo alguns projetos juntos!”, celebra.

Esse tipo de troca e parceria foi o que mais estimulou a designer e proprietária da Ksulo (empreendimento de móveis e decoração com técnicas handmade), Talita Demartine Gomes, 33, a buscar um coworking para trabalhar. Após conhecer alguns espaços, ela fincou o pé no lugar com o qual mais se identificou. “Tenho minha oficina no Galpão Makers. A gente divide o espaço, as contas e algumas ferramentas. A troca de conhecimentos das técnicas é um fator importante pra mim, além da rede de colaboração, pois um indica o outro para novos trabalhos e assim vai”.

Talita encontrou no coworking o apoio que precisava para abrir o próprio negócio. "Pra mim foi muito importante estar lá. Eu comecei muito pequena. Pra não dizer que eu comecei do zero, eu comecei do um. Com ferramentas só de mão, pouco material e pouca técnica. Então, eu fui errando, acertando, aprendendo, quebrando a cara mesmo. Nesse sentido, estar num ambiente de trocas só agregou para o desenvolvimento do meu trabalho, da minha técnica e do meu senso estético".

Para Rita, conviver com pessoas que alimentam ideais parecidos facilita o trabalho. “Acredito que seja muito importante trabalhar ao lado de pessoas que têm uma visão de mundo parecida com a minha, que compartilhem de uma energia e uma frequência similar. Como trabalhamos na mesma área, é muito legal pois também trocamos bastante figurinha”.

Trabalho e propósito

Foi Buda quem ensinou: "sua tarefa é descobrir o seu trabalho e, então, com todo o coração, dedicar-se a ele". Colocar isso em prática, no entanto, ainda é um obstáculo quase intransponível para a sociedade contemporânea.

Exceção à regra, Rita conta que jamais se imaginou fazendo algo que não fosse prazeroso. "As vezes vejo as pessoas tentando separar 'a vida pessoal da vida profissional' e isso me parece uma coisa extremamente confusa. Se eu não vivo o que faço todos os dias, se não vivo o que eu acredito, minhas ideias, minha ideologia, como eu posso acreditar em mim mesma? Como posso ser coerente tendo uma crença e atuando de outra forma?"

Uma das consequências mais comuns ao sair da zona de conforto é abrir espaço para manifestar novas versões de si mesmo. De fato, todas as entrevistadas desta matéria contam sobre como descobriram dons e talentos, mudando a maneira de enxergar o trabalho. “Durante as minhas viagens, comecei a trabalhar também com xilogravura e livros artísticos. Quando conheci meu companheiro, eu estava fazendo uma residência artística na Alemanha”, celebra Jaqueline, que já expôs suas obras em diferentes países.

Na vida de Lis, a abertura para a vocação musical se deu de maneira gradual. "Primeiro, por completa sensação de infelicidade, eu deixei toda a segurança que o trabalho estável me oferecia e fui trabalhar um tempo como comunicadora freelancer. Nessa época, meu trabalho musical ficava em segundo plano. Eu resolvia todas as tarefas do dia antes de começar a fazer música, mas como dependia da quantidade de trabalho, fazer música nem chegava a acontecer. Hoje a música é a minha prioridade, a primeira atividade do dia".

Rita pontua que desde muito cedo buscou maneiras de ser recompensada fazendo o que gosta. "Aos 16 anos, comecei a fazer aulas de circo em um projeto social da cidade onde eu morava, e logo decidi que era aquele caminho que eu queria seguir. Do palco pros bastidores foi um pulo, sempre seguindo minha intuição. Trabalho pra mim é vida, é a maior exemplificação de quem eu sou, e de como posso contribuir com o crescimento e amadurecimento da sociedade", define.

Desafios

Este cenário em que o trabalho deixa de estar relacionado a um lugar específico e passa a ter maior conexão com a habilidade profissional de fazer as coisas acontecerem é muito atrativo e cheio de vantagens. Mas quem topa os desafios? Na avaliação de Lis, além de exigir disciplina, coragem e determinação, o modelo de trabalho pelo qual ela optou traz outras exigências. "Não posso dizer que foi fácil chegar aqui. É muito difícil escolher entre ter um salário fixo caindo na sua conta todo mês e ter a liberdade de não saber o quanto você vai ganhar (risos)".

Despertar a confiança na relação de trabalho a distância também pode ser uma dificuldade. "Existem momentos de muito trabalho, com rotinas de 12 horas por dia, mas há momentos de completa falta de trabalho. Outra desvantagem é que as empresas ainda têm muito preconceito, acham que não vai funcionar ou que não vão poder ter controle de qualidade sobre um trabalho realizado a distância", lamenta.

Jaqueline acredita que assumir o comando da vida profissional fez ela questionar muito mais o significado que o trabalho tem na sua vida. "Fico o tempo todo me perguntando se eu estou realmente fazendo alguma coisa que eu gosto e se atende aos meus princípios éticos. Algumas vezes, quando estou chateada com o trabalho, geralmente por me sentir sobrecarregada, eu fico imaginando como seria voltar a ter um trabalho convencional e sempre chego à conclusão de que assim como estou é realmente melhor".

Julio garante que - após dois anos trabalhando de casa - ainda não consegue enxergar desvantagens nesse modelo. Nesse período, ele já viajou algumas vezes tanto para o exterior quanto pelo Brasil, sempre com uma mochila nas costas. "É mais tranquilo, a sensação de liberdade é insuperável, é mais calmo, mais econômico e permite reconectar com hábitos que a chamada "vida moderna" nos obrigou a abandonar, como cozinhar, prolongar um descanso, dar uma cochilada quando sente sono, exercitar-se, etc. Também posso trabalhar de qualquer lugar do mundo - desde, claro, esteja conectado e consiga cumprir os prazos".

Já as vantagens, Julio avalia que são inúmeras. "A principal delas é a qualidade de vida que o trabalho em casa oferece. Numa cidade como São Paulo, não ter que se deslocar para o trabalho é um privilégio imensurável - já imaginou quantas horas e quantas centenas de reais eu economizo por mês sem ter que ir e vir todos os dias? Posso preparar minha própria comida com o cuidado e carinho que ela merece, estabeleço um vínculo forte com a casa - eu amo estar em casa - posso ficar mais tempo com meus gatos, consigo encontrar amigos que também trabalham em casa para um almoço ou um café".

 

Nanda Barreto é jornalista, professora de yoga e escreveu esta matéria durante uma viagem incrível de mais de dois meses pelas estradas do Brasil. Os parágrafos foram devidamente intercalados por mergulhos no mar e banhos de cachoeira.

 

“Quando eu morava no Brasil, eu tinha dois trabalhos.Saía e chegava em casa todos os dias mais ou menos no mesmo horário. Tudo era bastante rotineiro. Hoje eu convivo com uma absoluta não-rotina. Em geral, eu divido meu tempo entre trabalhar em projetos para o Brasil e os meus clientes aqui na Nicarágua".

Jaqueline Bica, 35, designer gráfica, xilogravurista e artista visual

 

 

 


 

"Quando comecei a trabalhar nômade eu não tinha rotina. Foi aquele encantamento com a liberdade recém conquistada. Em pouco tempo, eu percebi que tinha todas as tarefas atrasadas, pois eu precisava gerenciar duas carreiras completamente diferentes. Foi então que resolvi ter uma agenda a sério."

Lis Rodrigues, ou DJ Allix, 42, comunicadora e musicista

 

 

 

 

 


 

"Gosto do movimento e fluxo de pessoas no coworking. Todos os dias conheço gente nova! A possibilidade de gerar fluxo de trabalho entre as pessoas e empresas aumenta, além de deixar o trabalho mais fluido. E a cereja do bolo é que fica mais barato! Trabalho pra mim é colaboração, exercício, coerência, é ideologia social e política"

Rita Masini, 28, produtora cultural

 

 


 

"Engana-se quem pensa que home-office é moleza, ou que a gente trabalha menos. Há um esforço descomunal para manter-se concentrado e jamais pisar na bola com o cliente. Você trava uma disputa cruel com o mundo lá fora, a possibilidade de ir e vir sem ser monitorado, a pilha de louça suja do almoço, a vontade de dar uma volta na rua, tomar um café, ver amigos que estão de passagem na cidade ou simplesmente deitar e assistir três episódios seguidos daquela série que você está viciado."

Julio Gurgel, 40, jornalista

 


 

"Acredito no trabalho colaborativo, humanizado e gosto bastante da participação dos clientes. No coworking, consulto bastante os outros profissionais, no nível de eu estar procurando uma cor para customizar um móvel e ir ao vizinho pedir a opinião sobre a cor que ele acha mais bonita. Temos uma relação bem íntima de troca e de crescimento."

Talita Demartine Gomes, 33, designer e proprietária da Ksulo

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