Bem-estar

22/02/2017 07h30

Quando a Internet se torna uma obsessão

Quais os riscos do uso das tecnologias digitais para a nossa saúde pessoal e social?

Por Vera Mari Damian/NBE

STOKKETE/ADOBE STOCK/NBE
Internet principal

EFEITO COLATERAL: a maioria das pessoas desconhecem os Riscos de saúde causados pela Tecnologia

É senso comum reconhecer que as tecnologias digitais trouxeram inúmeros benefícios para a nossa vida. Por outro lado, você já deve ter reparado (e talvez até se incomodado com) a forma exagerada com que as pessoas têm feito uso das tecnologias digitais no contexto do convívio social e até profissional.

O Facebook é acessado por mais de 1 bilhão de pessoas em todo o mundo. Passada a euforia dos primeiros tempos de uso, o FB começou a ser definido como uma rede “que aproxima quem está longe e afasta quem está perto”. Com ele, viu-se até mesmo relações sociais de familiares, amigos e vizinhos acabarem migrando para o ambiente virtual.

No Brasil, quase 80% dos assinantes da telefonia móvel é usuária do WhatsApp o que o projetou como o segundo país no mundo com o maior uso desta forma de comunicação. Facilita, economiza, agiliza, mas cria o desconforto/risco de submeter o usuário a uma espécie de escravidão à telinha.

Some-se ao FB e ao Whats o tempo dispendido em mensagens, e-mails, vídeo games, tábletes, computadores e outros e vai parecer comum que passemos boa parte de nossa vida on-line. Aliás, os brasileiros estão entre os que mais tempo passam em frente à internet. Pesquisa da agência internacional We Are Social indicou em 2015 que a média de permanência on-line dos navegadores brasileiros era de 9 horas e 13 minutos por dia. Em 2017 pode ser ainda maior.

Mas nem tudo o que se torna comum deve ser considerado normal e/ou saudável. Quando o assunto é reflexos das tecnologias digitais na saúde mental, poucas vozes se levantam, por desconhecimento ou por receio de parecerem retrógradas.

O jornal Nosso Bem Estar foi ouvir um dos maiores especialistas brasileiros neste tema. Cristiano Nabuco é pós-doutor em psiquiatria e coordenador do Grupo de Dependência Tecnológica da Universidade de São Paulo, com vários livros publicados no Brasil e nos Estados Unidos em sua área de atuação. Nesta entrevista exclusiva ele fala com autoridade de quem pesquisa há anos sobre o uso e os riscos das tecnologias digitais na saúde pessoal e social.

NBE - Como o senhor avalia o uso de tecnologias digitais na infância?

A tecnologia não chega nas mãos das crianças por acaso – é entregue pelos pais como uma tentativa de terem mais tempo para realizarem suas próprias atividades como uma espécie de babá eletrônica. Nos Estados Unidos, por exemplo, alguns carrinhos de bebês já vêm com suporte para tábletes. A criança não tem ainda sequer firmeza para segurar a cabeça, mas já tem um táblete para olhar. Veja que no momento em que a criança está interagindo com o táblete, ela não está interagindo com mais ninguém. Estas mídias ocupam o espaço que deveria ser preenchido pela interação da criança com outras pessoas à sua volta, o que a auxilia, por exemplo, no desenvolvimento da linguagem. É esta interação que vai ajudá-la a ir progredindo do ponto de vista cognitivo e, assim, ir aperfeiçoando suas funções cerebrais. Submeter a criança fundamentalmente às interações através de tecnologias digitais é o mesmo que desconsiderar a sua real necessidade de progresso. O brilho e o movimento dos aparelhos estimula a criança a interagir apenas entre o computador e ela mesma, desinteressando-a de exercitar outras formas de interações. Isto vai contra a própria ecologia do desenvolvimento humano. Vamos lembrar que é o brincar com as pessoas que ajuda a criança a desenvolver a capacidade de experimentar emoções alheias, apenas para citar outro exemplo.

NBE - Os pais normalmente acreditam que hoje a tecnologia é importante no desenvolvimento da criança, especialmente dos jovens. Qual a sua opinião?

É um tiro no pé deixar crianças e jovens serem expostas apenas à tecnologia. Já existem pesquisas internacionais indicando que os níveis mundiais de QI - Quoficiente de Inteligência - estão declinando, apesar de toda a informação disponível hoje. Assim sendo, é certo dizer que informação disponibilizada pela tecnologia não está, necessariamente, se tornando conhecimento e aprimorando os recursos intelectuais dos jovens e adultos.

O cérebro é orientado a responder às estimulações ambientais. Quanto mais sua atenção for capturada por uma determinada coisa, maior será o envolvimento com ela. Só porque o jovem é mais rápido ou tem mais acessos às mídias digitais, não significa que ele seja mais inteligente, aliás, muito pelo contrário. A tecnologia de fato está mudando a forma dos indivíduos se relacionarem. Mas, aprioristicamente, penso não devemos acreditar que esse modus operandi veio para nos tornar fundamentalmente melhores. Assim, a pergunta que fica é: a geração digital é a que mais recursos possui, se comparada às gerações anteriores ou, a tecnologia está, na verdade, limitando a sua capacidade intelectual e, portanto, colaborando para criar o que muitos pesquisadores chamam de “geração superficial”? Complementando: Se os níveis de QI estão, na verdade, caindo, estará a tecnologia ajudando efetivamente?

NBE – O senhor fala no surgimento da “personalidade eletrônica” (e-personality). Como é isto?

Quando interagimos pessoalmente, o cérebro capta sinais da outra pessoa no sentido de compreender se a informação passada é aceita ou rejeitada. Entretanto, na vida virtual, isso não acontece, colaborando para o aparecimento do que está sendo chamado de “personalidade eletrônica” – (e-personality). Esta personalidade ou, este modo de funcionamento, tem como características manifestações mais impulsivas, gerando comportamentos de maior agressividade, maior insubordinação e sexualização. Isto é facilmente perceptível nos comentários de posts, por exemplo. Quanto mais um jovem navega na internet, mais ele fica acostumado com esta personalidade eletrônica mais “liberal”. Aquelas pessoas, que possuem uma menor autoestima vão se dar muito bem na vida digital, pois se sentem mais à vontade e sem serem criticados pessoalmente.

NBE – Isto significa que quanto mais um indivíduo navegar, menos interage com o entorno e mais fechado ficará no seu próprio mundo?

Sim, este internauta específico acaba desenvolvendo menos atividades sociais e, como consequência, uma menor capacidade para interações sociais mais adequadas. Assim, reproduziríamos aquela noção de que “as pessoas ficam mais conectadas com a tecnologia, mas desconectadas do seu entorno”.

Além disto, a internet tem algoritmos (filtro programado nas plataformas de busca) que lhe coloca em contato com as coisas que mais costuma visualizar, criando assim, por exemplo, uma verdadeira “bolha customizada” de informações. O Facebook é um exemplo claro disto. Se olharmos para o passado vamos ver o quanto as gerações anteriores estavam em contato com informações diferentes daquilo que mais gostavam. A TV, por exemplo, sempre conseguiu nos fazer estar em contato com muitas visões de mundo. Hoje, na web, não sofremos uma exposição plural, mas uma exposição seletiva de informação. Para concluir, há pesquisas que já relacionam o aumento do uso da web ao aparecimento de transtornos da personalidade narcisista.

NBE – Em que medida o uso das mídias digitais vira doença?

As dependências comportamentais se baseiam na repetição de determinados comportamentos ao criar efeitos no cérebro exatamente iguais às dependências químicas, por exemplo.

O uso prolongado da internet passa a proporcionar sensações de prazer à pessoa ao estimular a liberação da dopamina – um neurotransmissor associado às situações de recompensa, o que induz o indivíduo a buscar novamente aquela experiência, perpetuando assim um ciclo vicioso.  Tal prazer pode, por exemplo, estar associado às curtidas no FB tornando o indivíduo “dependente” destes acontecimentos,  e portanto, fazendo com que precise de cada vez mais “doses” (ou curtidas) pra ter evocada as mesmas sensações de prazer. Ocorre que em um determinado momento o usuário perde a noção do limite, gerando a já conhecida dependência digital (veja box). Ainda que este diagnóstico não seja reconhecido de maneira oficial, já está sendo bastante estudado.

Para concluir, eu diria que a tecnologia entrou na vida das pessoas de uma maneira recreativa e de forma ampla. Ainda não está percebida com o perigo e a gravidade que nós profissionais da área de saúde já conseguimos detectar.

NBE - Como as escolas devem se posicionar sobre o uso de celulares e assemelhados no ambiente escolar?

É complicado porque hoje tudo o que se debruça sobre a tecnologia virou sinônimo de algo progressista. Mas já existem pesquisas que mostram que quanto mais tecnológica for a aula, menos aprendizagem estará ocorrendo. Estas pesquisas indicam que quanto mais o indivíduo acessa paralelamente a tecnologia em aula, quanto mais links existirem nestes acessos, menor é a quantidade de informações retidas pelo cérebro humano. Isto porque a informação à qual a pessoa é exposta, precisa de um tempo e uma velocidade de retenção, para que possa ser “ancorada” em nossa memória. Quando você lê um texto e escreve ao lado ou faz marcações, você está dando um jeito de diminuir a velocidade pra assegurar que aquela informação está “entrando” e sendo “retida”. É o que chamamos tecnicamente de “input”. Não é a toa que no Vale do Silício, nos Estados Unidos, onde estão concentrados alguns dos maiores desenvolvedores de tecnologia do mundo, há uma tendência de matricular os filhos em escolas que prezam por ensinar com “nada” de recursos tecnológicos (tech-less schools) para minimizar os efeitos da chamada “epidemia da distração”.

Não considero que a tecnologia “não deva” ser utilizada como uma ferramenta de auxílio pedagógico. Entretanto, se for usada, que não seja da forma que venho observando por aí, sem qualquer preparo.

Saiba mais

Livro

 “Psicologia do Cotidiano” de Cristiano Nabuco de Abreu, Editora Artmed: Porto Alegre.

Vídeos 

Desconecte-se para se conectar - www.youtube.com/watch?v=xzpCCVDFJTI

Usar bem pega bem - www.youtube.com/watch?v=JDAxhDa88DA

Textos

Desconectar-se para conectar-se de verdade - por Mariana Assis

http://www.escrevologoexisto.com/2013/11/22/desconectar-se-para-conectar-se-de-verdade/

 

FLAGRANTES DA VIDA REAL

No seu dia a dia ou em viagens, você já flagrou cenas de uso das tecnologias que te pareceram estranhas, inadequada ou engraçadas ? Sim? Então manda a tua foto pra gente para o e-mail redacao@jornalbemestar.com.br.

As imagens serão publicadas aqui no nosso portal. Lembre-se   de colocar seu nome e uma breve descrição de onde e como você fez a foto. Para ir se inspirando, olha o ‘click’ que a Vera flagrou!

“Apaixonada por livros desde a infância, fiquei chocada ao ver o menino dentro de uma livraria optando por joguinhos no tablete em meio a um mar de lindos livros infantis. Achei a cena emblemática dos tempos atuais e acabei fazendo o registro”.

Vera Mari Damian

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